Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília
Em um contexto em que o multilateralismo se mantém sob ataque, sobretudo dos Estados Unidos, que se retiraram do Acordo de Paris, o documento garante que a COP30 mostrou um novo modelo de resposta global, que não espera por soluções por decreto. E este é o caminho que a presidência pretende seguir até o final do seu mandato, em novembro deste ano, quando passa o bastão para a Turquia.
Na carta, André Corrêa do Lago afirma que as primeiras semanas de 2026 já demonstraram que o mundo está em uma encruzilhada na história da humanidade. Ele fala em um momento histórico de transições de fase, tanto na geopolítica, nas sociedades, nas economias e nas finanças, quanto nas culturas, na tecnologia e nos sistemas de informação.
É por isso que se deve recorrer a uma forma de "multilateralismo amadurecido", disse ele. "Se acreditamos que há a necessidade de acelerar, temos que estimular as coalizões. Não vamos esperar a possibilidade de consenso para agir", afirmou.
A carta frisa que a COP30 revelou as limitações do multilateralismo climático e da tomada de decisões por consenso formal e destaca a estratégia do ano passado de partir "de nicho para mainstream" para criar as condições para uma transição estrutural global rumo ao desenvolvimento de baixo carbono e resiliente ao clima.
"À medida que avançamos com nosso trabalho em 2026, devemos encarar tais limites não como fronteiras imutáveis, mas como sinais preciosos que nos ensinam que o multilateralismo climático amadureceu e está pronto para evoluir", diz o texto, que promete detalhes de planos adicionais para as próximas missivas.
Além da agenda climática
Nada disso, porém, significa abandonar o objetivo último, os desejados consensos. Mas, para a presidência da COP30, é certo que a ação climática ultrapassou de forma irreversível o direito internacional, as salas de negociação e os relatórios técnicos, como reitera na carta.
Sobre o prometido mapa do caminho para o afastamento dos combustíveis fósseis, Corrêa do Lago escreve que, longe de se tratar de moralidade climática, esses roteiros envolvem, antes de mais nada, planejamento e estabilidade para o futuro.
"Vão além da agenda climática, refletindo os riscos e oportunidades legais de transição e físicos relacionados à estabilidade financeira, à macroeconomia, aos modelos de negócios e ao combate à pobreza, à fome e à desigualdade, à criação de empregos e renda, e à garantia de acesso, segurança e acessibilidade energética, inclusive no que diz respeito a minerais críticos e a investimentos em larga escala relacionados à IA em infraestrutura digital", afirma no documento.
A jornalistas, o embaixador afirma estar consciente da importância do Mapa do Caminho e garante, sem maiores detalhes, que sua estrutura está em fase avançada, o que também ficaria para as próximas cartas. Ele sabe que as cobranças serão imensas e que a COP30 será julgada pelo formato do Mapa do Caminho, embora ele tenha sido uma ideia lançada pelo Brasil para além do conjunto das obrigações da agenda do sistema do clima.
A ideia é liderar pelo exemplo para mobilizar os países pela urgência da redução da dependência dos combustíveis fósseis, tema sobre o qual o mundo está longe de alcançar uma posição de consenso, como ficou evidente em Belém. Por pouco, isso não inviabilizou o resultado final da reunião.
Corrêa do Lago quer uma grande plataforma de inteligência para a qual avisou que quer ouvir entidades que já fizeram diversos estudos sobre o tema, entre elas a IEA e a OPEP, além de setor privado e a sociedade civil.
Na mesma conversa com jornalistas, a CEO da COP30, Ana Toni, afirmou que a conferência promoveu um debate sem precedentes sobre um tema conhecidamente difícil que nenhuma outra edição conseguiu fazer. Segundo ela, o documento do Mapa do Caminho para o afastamento dos fósseis será ainda uma plataforma que vai permitir que todos os países se preparem para a transição.
"Vai ser uma ferramenta-chave de implementação", afirmou.