Cleide Klock, correspondente da RFI nos EUA
A mudança de tom contrasta com declarações anteriores e expõe a volatilidade do cenário. Em meio a negociações bloqueadas, ameaças militares e reflexos imediatos no preço do petróleo e na segurança global, Washington mantém medidas que Teerã classifica como provocativas.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, considera a medida como "um passo importante para a desescalada" e para a criação de espaço para a diplomacia entre Estados Unidos e Irã. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, agradeceu aTrump por atender ao pedido de extensão, destacando o papel de mediação de seu país.
Já aliados do governo iraniano minimizaram o gesto e lembram que a decisão não tem efeito prático caso não haja mudanças concretas por parte dos EUA. Mahdi Mohammadi, assessor ligado ao Parlamento iraniano, chegou a declarar que a extensão "não tem significado" e escreveu também nas redes sociais que "a prorrogação do cessar-fogo é certamente uma manobra para ganhar tempo para um ataque surpresa".
'Ato de guerra'
Os EUA mantêm o bloqueio naval e operações contra navios iranianos, inclusive apreensões no oceano Índico. Esse é um dos principais pontos de atrito: o Irã considera essas ações uma violação prática do cessar-fogo e as classifica como "ato de guerra".
A imprensa iraniana, por meio da agência Tasnim News, ligada à Guarda Revolucionária, afirmou que a manutenção do bloqueio naval pelos Estados Unidos é vista como continuidade das hostilidades e que o Irã não retirará as restrições ao Estreito de Ormuz enquanto essa medida permanecer em vigor.
O que mantém, na prática, o nível de tensão elevado. Trump ainda não estabeleceu um novo prazo e afirmou apenas que a trégua foi estendida para dar tempo de o Irã apresentar uma proposta de negociação.
Do ataque à trégua em poucas horas
Horas antes de estender o cessar-fogo, havia dito, em entrevista à CNBC: "Acho que vou bombardear, porque acho que essa é uma atitude melhor. Mas estamos prontos para agir. Quero dizer, os militares estão loucos para agir". A declaração causou ainda mais surpresa quando o presidente recuou nas redes sociais e publicou:
"Com base no fato de que o governo do Irã está seriamente fragmentado e a pedido do marechal Asim Munir e do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, do Paquistão, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes possam apresentar uma proposta unificada."
A decisão veio após o cancelamento da viagem do vice-presidente JD Vance ao Paquistão, prevista para esta quarta-feira (22), que incluiria uma nova rodada de negociações de paz. Segundo a imprensa americana, Teerã não respondeu às propostas dos Estados Unidos.
Na prática, a extensão do cessar-fogo reduz o risco imediato de confronto, mas não resolve os pontos centrais do conflito. Muitos interpretam a medida mais como estratégia do que como uma trégua duradoura. Analistas e o próprio Irã veem o movimento com ceticismo, interpretando a decisão de Donald Trump como uma manobra tática: ganhar tempo diante do impasse diplomático, manter a pressão com medidas como o bloqueio naval e administrar o desgaste político interno.
Rejeição interna
A decisão de Trump ocorre em um contexto de fragilidade no cenário interno. O presidente registra, nas pesquisas, taxa de rejeição na casa dos 60% a 62%, índice que se mantém como tendência consistente desde meados de março, quando o conflito com o Irã se intensificou e passou a impactar diretamente a economia.
Os norte-americanos já sentem os efeitos no bolso. A alta do preço da gasolina nos Estados Unidos desencadeou um efeito dominó na economia, elevando custos de transporte, alimentos e serviços. Com o petróleo em alta e o mercado global mais instável, consumidores enfrentam aumentos generalizados, o que amplia a insatisfação e reforça a percepção de desgaste político em meio à crise com o Irã.
Diante desse cenário, a extensão do cessar-fogo pode ser lida também como um movimento calculado: reduzir a pressão internacional enquanto o governo tenta amenizar o impacto político interno. Ainda assim, especialistas apontam que, sem resultados concretos nas negociações, dificilmente haverá mudança significativa na percepção da opinião pública.