Temor de minas iranianas aumenta a tensão no Estreito de Ormuz e isola 3.000 navios

O Irã continua a paralisar o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. O regime iraniano poderia até agravar a situação minando o estreito e as águas do Golfo, pelo menos de acordo com acusações americanas.

17 mar 2026 - 16h18
(atualizado às 16h52)

Franck Alexandre, especialista em defesa da RFI. 

O Estreito de Ormuz se estende por 50 quilômetros, tem 30 metros de largura e 100 metros de profundidade; em outras palavras, os iranianos não teriam dificuldade em miná-lo. Eles não precisariam de embarcações especializadas: algumas dezenas de botes Zodiac, por exemplo, seriam suficientes, e Teerã possui toda a gama de minas marítimas, explica o coronel De Jong Anien, do Corpo de Fuzileiros Navais, especialista em operações anfíbias. 

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"As minas se dividem em duas categorias. As minas a pressão, em formato de bolas, com detonadores em seu entorno, que podem ser atracadas ao fundo do mar ou deixadas boiando na superfície e que representam a maioria das existentes, pois são mais baratas. A outra categoria são as minas de influência eletromagnética ou acústica, capazes de diferenciar até um navio de guerra de um cargueiro, por exemplo", explica o militar. 

Essa segunda categoria consiste em minas inteligentes, e todo o pessoal operacional concorda que é altamente provável que os iranianos já as tenham pré-posicionado no estreito, prontas para serem ativadas. Se isso for confirmado, haverá consequências em cascata, afirma Vincent Groizeleau, da revista Mer et Marine. 

"Se eles colocarem minas massivamente no estreito de Ormuz, ele pode ficar fechado por meses. Ninguém vai querer passar até que todas sejam encontradas. E nunca se sabe ao certo quantas são. Na última guerra do Golfo, foi preciso um ano e meio para retirar todas as minas no Kuwait", diz o especialista. 

A pressão dos EUA e a prudência europeia 

Diante dessa ameaça, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está exigindo que seus aliados o ajudem a liberar a passagem para petroleiros no Golfo. 

Embora a França pretenda liderar uma coalizão para garantir a navegação, isso só ocorreria após o fim das hostilidades, de acordo com o almirante Thibault de Possesse, comandante do grupo naval que opera atualmente no Mediterrâneo Oriental. 

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"Hoje não temos contato com o porta-aviões Abraham Lincoln e com o Gerald R. Ford. Nossas operações são separadas. E não coordenadas. Não temos os mesmos objetivos. Não ocupamos a mesma zona de operação", afirma o almirante francês. 

As capitais europeias não querem ser apanhadas no fogo cruzado entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e Irã, de outro. O presidente francês, Emmanuel Macron, convocará um novo conselho de defesa ainda nesta terça-feira para discutir a situação no Oriente Médio. 

3.000 navios retidos no Golfo 

A principal associação mundial de armadores alertou nesta terça-feira que o reabastecimento de cerca de 3.000 navios, cujas tripulações aguardam a bordo, retidos pela guerra no Oriente Médio, está em risco. John Stawpert, diretor do departamento marítimo da Câmara Internacional de Navegação (ICS), sediada em Londres e representante de mais de 80% da frota mercante mundial, apelou aos governos para que ajudem a retomar o tráfego marítimo. 

"Há 20.000 marinheiros a bordo de 3.000 navios de vários tipos retidos no Golfo", disse, na véspera de uma reunião da Organização Marítima Internacional (OMI), na quarta e quinta-feira, em Londres, dedicada à situação no Estreito de Ormuz. 

"Nossa maior preocupação agora é o impacto de uma guerra contínua nos suprimentos a bordo dos navios. Já estamos recebendo relatos de problemas no abastecimento de combustível. Também estamos preocupados com a capacidade de alguns desses navios de produzir água potável", acrescentou. 

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"Precisamos trabalhar com os Estados onde os navios estão registrados, mas também precisamos colaborar com os Estados da região para encontrar uma solução que garanta o reabastecimento desses navios", concluiu. 

Escoltas militares não bastam 

Para o executivo, a questão das escoltas militares "irá depender das condições do apoio fornecido". 

"Não se trata apenas de pensar em termos de recursos físicos no mar. Trata-se também das informações e da inteligência disponíveis para os navios, que podem ajudar a avaliar a ameaça. Isso é o que, em última análise, decidirá se os navios zarparão ou não", diz. 

"O problema que enfrentamos atualmente — e esta é uma das razões pelas quais temos visto tão poucos navios se movimentando — é que os critérios do Irã para selecionar navios que transitam por essas águas não são claros", denuncia. A escolta, portanto, "dependeria do que for fornecido, por quem e para quem". 

Na avaliação de Stawpert, é necessária "uma solução que atenda às necessidades de todos os navios, e não apenas com base em sua bandeira". 

O que dizem os Estados Unidos 

A posição oficial dos Estados Unidos, expressa pelo Comando Central (CENTCOM) e reiterada pelo presidente Donald Trump, é a de que as forças americanas já destruíram boa parte da capacidade iraniana de lançar minas no Estreito de Ormuz. 

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Em 10 de março de 2026, o CENTCOM anunciou que 16 embarcações iranianas usadas para lançamento de minas foram destruídas perto do Estreito de Ormuz. A destruição foi apresentada como uma ação preventiva para impedir que o Irã bloqueasse o tráfego marítimo. 

Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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