A ligação ocorre em um momento de pressão crescente sobre rotas marítimas e mercados de commodities, cenário que tem afetado tanto o Brasil, quanto a China. Segundo o Planalto, o telefonema durou mais de uma hora e combinou temas econômicos e geopolíticos que os dois governos vêm tentando tratar de forma coordenada desde o início do ano.
A conversa funcionou como sinal político de que Brasília e Pequim pretendem reforçar a interlocução diante das tensões internacionais agravadas pela atuação do presidente norte‑americano, Donald Trump.
O ponto mais sensível da agenda bilateral foi a discussão sobre um possível acordo Mercosul‑China. O tema, historicamente tratado com cautela dentro do bloco sul‑americano, ganhou impulso após a decisão brasileira de diversificar parceiros comerciais e reduzir a dependência de mercados tradicionais. Lula e Xi concordaram sobre a necessidade de "acelerar as tratativas" e de incluir "flexibilidades", termo que indica ajustes para acomodar diferenças internas do Mercosul e demandas chinesas em setores como agricultura, tecnologia e serviços.
A conversa abordou projetos tecnológicos que vêm sendo negociados entre os dois países. Conforme a nota oficial de Brasília, os presidentes reiteraram o interesse em ampliar cooperação em inteligência artificial, satélites e beneficiamento de minerais críticos, áreas que se tornaram centrais na disputa global por autonomia tecnológica. O Brasil busca reduzir a dependência de fornecedores tradicionais de equipamentos e softwares, enquanto a China tenta consolidar sua posição como parceira estratégica em setores de ponta.
Outro ponto destacado foi o comércio de fertilizantes, tema sensível para o agronegócio brasileiro. A China é um dos principais fornecedores de insumos para o setor, e a instabilidade no Oriente Médio tem pressionado preços e logística. Lula afirmou que seu governo segue comprometido com a diversificação de mercados, enquanto Xi ressaltou os "bons resultados do comércio bilateral", que se mantém robusto apesar das tensões internacionais.
Além da agenda econômica, Lula e Xi discutiram iniciativas culturais e de turismo que vêm sendo implementadas nos dois países. As jornadas culturais em curso e o acordo de isenção de vistos de curta duração foram citados como instrumentos para ampliar o fluxo de turistas e criar oportunidades de negócio. A China tem buscado reforçar sua presença cultural na América Latina, enquanto o Brasil tenta atrair investimentos e visitantes em meio à recuperação do setor de serviços.
Tensões regionais e críticas ao governo Trump
A parte mais política da conversa tratou das restrições à navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el‑Mandeb, pontos estratégicos para o transporte de petróleo e mercadorias. Lula e Xi concordaram que as limitações impostas na região têm efeitos "nefastos" sobre a economia mundial, em crítica indireta às ações militares e decisões diplomáticas do governo Trump, que têm contribuído para a instabilidade no Oriente Médio.
Os dois presidentes também expressaram "profunda preocupação" com a situação humanitária em Gaza, que permanece crítica após meses de confrontos e bloqueios. A avaliação conjunta reforça a tentativa de Brasil e China de se posicionar como vozes alternativas às potências ocidentais na discussão sobre o conflito, em um momento em que o governo norte‑americano enfrenta críticas por sua atuação na região.
Outro ponto de convergência foi a guerra na Ucrânia. Lula e Xi afirmaram que o Grupo de Amigos da Paz pode desempenhar papel relevante na retomada das negociações, em contraste com a postura mais dura adotada por Washington. A iniciativa, apoiada por países do Sul Global, busca criar uma alternativa às negociações conduzidas por Estados Unidos e União Europeia, que não têm avançado.
Paralisia do Conselho de Segurança
Lula e Xi também criticaram a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU de responder às crises internacionais. Segundo a nota, os dois observaram que o próximo ou a próxima secretária‑geral da organização enfrentará um cenário "particularmente desafiador", marcado por disputas entre grandes potências e pela dificuldade de construir consensos. A crítica ao órgão, frequentemente bloqueado por vetos de Estados Unidos, Rússia e China, reforça a posição brasileira de defender reformas na governança global.
Nesse contexto, os dois presidentes reiteraram o compromisso de Brasil e China com a defesa do multilateralismo e concordaram em manter coordenação estreita na ONU, no Brics e em outros fóruns internacionais. A aproximação entre os dois países tem sido vista como parte de uma estratégia mais ampla de reorganização das alianças globais, em que o Brasil busca ampliar sua influência e a China tenta consolidar sua posição como contraponto aos Estados Unidos.
Com AFP