Sob o impacto do trauma do 7 de Outubro, Israel lida com feridas abertas, como relata a sobrevivente brasileira Pérola Gaz, do devastado Kibutz Be'eri. O atentado deslocou o debate político para a direita e paralisou o luto nacional. Em meio a milhares de mortos no conflito, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta queda de popularidade antes das eleições, recorrendo ao medo para conter a oposição em um parlamento fragmentado, onde legendas árabes podem ser decisivas.
Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
Se para o resto do mundo o foco está na Faixa de Gaza, nas mortes de milhares de palestinos e nas frentes de guerra que continuam em aberto, em Israel é como se o tempo tivesse parado.
"Nós, enquanto sociedade, falamos do 7 de Outubro como se fosse ontem. Ou hoje. O governo e o país não pararam (para refletir). E só quando se para e se reconhece que algo aconteceu, é possível iniciar o processo de luto pelo que se perdeu", afirma Tuli Flint, um dos principais especialistas israelenses em estresse pós-traumático.
Do ponto de vista político, os ataques também tiraram a questão palestina do debate interno em Israel.
"O país virou-se à direita. Todo a discussão em torno dos palestinos já não está na agenda. Mesmo na esquerda este assunto não é mais parte da discussão. Isso talvez represente um sentimento do público de falta de confiança na possibilidade de haver uma mudança significativa ou de que esta não é questão mais urgente neste momento", diz Guy Ben-Porat, especialista em política comparada e sociologia política na Universidade Ben-Gurion do Neguev.
O Ministério da Defesa de Israel e o Instituto Nacional de Seguros divulgaram os números atualizados de mortos desde os ataques do Hamas: 1.029 civis assassinados, além de 1.153 membros das forças de segurança.
Do outro lado da fronteira, o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, controlado pelo Hamas, registra 74 mil mortos. O ministério não diferencia civis de combatentes.
Cenário político
A menos de 20 dias das eleições, a taxa de aprovação do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu continua em tendência de queda. Dados do Instituto de Democracia de Israel (IDI) mostram que a desaprovação pessoal dos israelenses ao primeiro-ministro oscila entre 57% e 60%.
O Índice de Democracia de Israel aponta que apenas 26% dos cidadãos declaram que se sentem plenamente representados pelo atual sistema político, o número mais baixo registrado desde 2003.
Apesar disso, segundo as pesquisas, o Likud, partido liderado por Netanyahu, ainda consegue obter cerca de 20 dos 120 mandatos do Knesset, o parlamento. O número é inferior ao conquistado nas duas eleições anteriores, em 2022 e 2021, quando o partido obteve, respectivamente, 32 e 30 assentos.
No entanto, as sondagens também apontam que, mesmo com 20 assentos, a legenda liderada por Netanyahu deverá ser a segunda força no Knesset, atrás apenas do recém-criado Yashar, partido de centro-direita liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot.
"A votação não é sobre o dia 7 de Outubro, sobre a Reforma Judiciária, ou sobre o recrutamento dos Haredim (os judeus ultraortodoxos) para o exército; é sobre se o eleitor odeia mais a direita ou a esquerda. Árabes ou judeus. Netanyahu é muito hábil em transformar o medo em ódio", diz Uriel Abulof, professor de Ciências Políticas na Universidade de Tel Aviv e na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.
Netanyahu muda de estratégia
Se nas eleições anteriores a campanha de Netanyahu procurava demonstrar o seu acesso a líderes internacionais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e até o presidente russo, Vladimir Putin, agora o foco é enviar uma mensagem clara aos eleitores.
No enorme cartaz exposto num edifício em Tel Aviv, uma montagem apresenta lado a lado o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem.
A mensagem é simples e direta: "Eles querem que Netanyahu perca. Não os deixem vencer".
Neste momento, apesar de uma ligeira vantagem para o bloco da oposição a Netanyahu, nenhum dos lados consegue alcançar a maioria mínima de 61 dos 120 mandatos do parlamento para formar uma coalizão de governo.
O fiel da balança está com os partidos árabes que, juntos, deverão obter entre dez a 14 mandatos. Historicamente, estes partidos optam por não se unir a coalizões, mas, em 2021, o Ra'am, partido ligado ao movimento islâmico em Israel, optou por quebrar esta tradição e juntou-se ao então bloco de partidos da oposição, viabilizando um governo heterogêneo formado por partidos de esquerda, centro e direita.
Uma das expectativas das próximas eleições é precisamente entender qual será a decisão destes partidos, que representam os cerca de 20% de árabes-israelenses.
A dor dos que viveram o 7 de Outubro
Longe do jogo político, Pérola Gaz procura reconstruir a sua vida. Desde 1993, ela vive no Kibutz Be'eri, uma das comunidades do sul de Israel atacadas pelo Hamas no dia 7 de Outubro. O Kibutz é uma comunidade coletiva baseada na agricultura e hoje também em indústrias tecnológicas e que tem como inspiração princípios socialistas de igualdade e propriedade.
Nos ataques de 7 de Outubro, 10% dos residentes do Kibutz Be'eri foram mortos. Pérola permaneceu trancada num abrigo durante cerca de 20 horas ao lado das duas netas, então com seis e dez anos de idade.
Em meados do próximo ano, após o processo de reconstrução do kibutz, o plano é que os moradores retornem.
"Eu sei que tenho de voltar a morar no lugar em que morava, o Kibutz Be'eri, eu sei que é a minha casa, mas é uma casa que não me traz segurança. A sensação é de que eles (os terroristas do Hamas) sempre voltarão e que pode acontecer outro evento como aquele. Sinto que não vou poder voltar a ser o que eu era", diz.
A RFI entrou em contato com o Kibutz Be'eri para buscar uma estimativa numérica sobre o retorno dos moradores. A direção do kibutz avalia que 90% dos que sobreviveram deverão regressar até o prazo máximo estipulado de julho de 2027. Os membros da comunidade têm até março do ano que vem para decidir.