Saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP amplia instabilidade do mercado do petróleo

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta terça‑feira (28) sua saída da OPEP e também da OPEP+, em um movimento que representa um duro golpe para os dois principais grupos de países exportadores de petróleo e, em particular, para a Arábia Saudita, que lidera a organização. A decisão ocorre em um momento delicado, marcado por um choque energético histórico provocado pela guerra no Oriente Médio e por crescentes sinais de instabilidade na economia global.

28 abr 2026 - 12h24

Membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo desde 1967, os Emirados Árabes Unidos participaram durante quase seis décadas da estratégia coletiva de controle da oferta. A saída surpresa pode aprofundar divisões internas e enfraquecer o cartel, que tradicionalmente busca projetar uma frente unida, mesmo diante de divergências recorrentes — que vão de disputas geopolíticas a desacordos sobre cotas de produção.

Panorâmica de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Imagem de 23 de Janeiro de 2026.
Panorâmica de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Imagem de 23 de Janeiro de 2026.
Foto: AFP - GIUSEPPE CACACE / RFI

O anúncio ocorre em um contexto particularmente sensível para os países produtores do Golfo. As exportações de petróleo da região enfrentam sérias dificuldades desde o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, logo após o início da guerra lançada pelos Estados Unidos e por Israel, em 28 de fevereiro. Por essa faixa marítima estratégica, situada ao longo da costa iraniana, transitam normalmente cerca de 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.

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O bloqueio transformou o estreito em um dos principais focos de tensão do conflito, fez os preços do petróleo dispararem e lançou uma forte incerteza sobre as perspectivas econômicas globais.

A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP também representa uma vitória política para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, crítico histórico do cartel. O líder americano acusou repetidamente a organização de "roubar o resto do mundo" ao manter artificialmente elevados os preços do petróleo.

Aliado estratégico de Washington e centro comercial regional, Abu Dhabi vinha demonstrando crescente descontentamento com a postura de outros países árabes diante dos ataques iranianos sofridos desde o início da guerra. A crítica se tornou pública na véspera do anúncio.

Durante uma sessão do Fórum de Influenciadores do Golfo, na segunda‑feira (27), o conselheiro diplomático do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, classificou como fraca a resposta coletiva do mundo árabe e do Golfo.

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"Os países do Conselho de Cooperação do Golfo se apoiaram logisticamente, mas, do ponto de vista político e militar, acho que essa foi a posição mais frágil de sua história", afirmou. "Eu já esperava essa postura da Liga Árabe, mas não a do Conselho de Cooperação do Golfo", acrescentou.

Mais liberdade para bombear petróleo

O ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail bin Mohammed Al Mazrouei, afirmou à Reuters que a saída da OPEP e da OPEP+ dá ao país maior margem de manobra, já que Abu Dhabi deixa de ter compromissos formais com o grupo. Segundo ele, a decisão foi tomada sem consultas diretas a outros membros, incluindo a Arábia Saudita.

Analistas veem o gesto como um ponto de inflexão para o mercado de petróleo. Para Jorge Leon, da consultoria Rystad, os Emirados Árabes Unidos estão entre os poucos membros da OPEP que, ao lado da Arábia Saudita, dispõem de significativa capacidade ociosa — uma ferramenta fundamental para a influência do cartel sobre os preços.

"Embora o impacto imediato possa ser limitado, dadas as interrupções atuais no Estreito de Ormuz, a implicação de longo prazo é um enfraquecimento estrutural da OPEP", avalia.

Fora da organização, diz o analista, os Emirados Árabes Unidos têm tanto a motivação quanto a capacidade para aumentar sua produção, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do papel saudita como principal estabilizador do mercado.

Sem a força coletiva da OPEP para absorver choques de oferta, o mercado global de petróleo pode se tornar ainda mais volátil — em um momento em que a energia já se tornou um dos principais vetores de instabilidade econômica e geopolítica no mundo.

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Com AFP

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