Ratko Mladic, o 'carniceiro dos Bálcãs' e ex-chefe militar dos sérvios da Bósnia, morre aos 84 anos

Ratko Mladic, ex-comandante militar dos sérvios da Bósnia, conhecido como o "carniceiro dos Bálcãs" e condenado à prisão perpétua pela Justiça internacional, sobretudo pelo genocídio de Srebrenica em 1995, morreu nesta quinta-feira (27), aos 84 anos. A informação foi divulgada pela emissora pública sérvia RTS.

27 ago 2026 - 13h59
Resumo
Ratko Mladic, ex-comandante militar sérvio-bósnio conhecido como o "carniceiro dos Bálcãs", morreu aos 84 anos em Haia, onde cumpria prisão perpétua. Condenado por genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), Mladic foi o principal responsável pelo massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica e campanhas de limpeza étnica. Preso em 2011 após 16 anos foragido, ele estava gravemente doente e sua morte será investigada a pedido da corte da ONU.

"Mladic, ex-comandante do Exército da República Sérvia da Bósnia, morreu aos 84 anos", informou a televisão estatal em seu site. O Mecanismo Residual Internacional para os Tribunais Penais, sucessor das cortes penais da ONU, confirmou que ele morreu em um hospital de Haia, onde estava internado. A presidente do órgão, a juíza Graciela Gatti Santana, determinou uma "investigação aprofundada sobre as circunstâncias da morte". 

Mladic estava gravemente doente há vários meses. Sua morte ocorreu poucos dias após o Mecanismo Residual rejeitar um novo pedido apresentado por sua família e pelo governo da Sérvia para que ele fosse transferido a um hospital militar em Belgrado para receber tratamento. 

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"É um assassinato silencioso do meu pai", denunciou na semana passada seu filho, Darko Mladic, após visitá-lo em Haia. Ele acusava os médicos do centro de detenção de terem "interrompido totalmente os cuidados médicos". 

Conhecido como o "carniceiro dos Bálcãs", Mladic representava o braço militar de um trio que marcou o período de guerras na ex-Iugoslávia, ao lado do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic e do antigo líder político dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic. 

O general sérvio-bósnio Ratko Mladic fala com soldados perto da cidade bósnia de Cazin, em 4 de setembro de 1994.
O general sérvio-bósnio Ratko Mladic fala com soldados perto da cidade bósnia de Cazin, em 4 de setembro de 1994.
Foto: RFI

Genocídio de Srebrenica 

Comandante das forças sérvias da Bósnia durante a guerra entre 1992 e 1995, Mladic foi condenado à prisão perpétua em 2017 pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A sentença foi confirmada em recurso em 2021. 

A guerra da Bósnia deixou cerca de 100 mil mortos e provocou o deslocamento de aproximadamente 2,2 milhões de pessoas. 

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Entre os crimes atribuídos a Mladic está o massacre de cerca de 8 mil homens e adolescentes bósnios-muçulmanos em julho de 1995, na região de Srebrenica, no leste da Bósnia, considerado o pior massacre ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. 

Imagens da época mostram Mladic distribuindo doces pouco antes de mulheres e crianças serem retiradas da cidade em ônibus. Os homens e adolescentes foram separados, levados para áreas florestais e executados. Seus corpos foram enterrados em valas comuns, muitas das quais foram posteriormente reabertas e os restos mortais transferidos para outras localidades, em uma tentativa de ocultar as provas do crime. 

Sobreviventes relataram execuções, atos de tortura e estupros cometidos por integrantes das forças sérvias da Bósnia. 

Fugitivo por 16 anos 

Em novembro de 1995, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia indiciou Mladic. Afastado de suas funções, ele conseguiu escapar da prisão por mais 16 anos. Durante parte desse período, viveu sob proteção de setores do Exército sérvio e manteve uma vida confortável na Sérvia, onde ainda hoje é visto como herói por parte da população. 

A pressão internacional aumentou após a queda de Slobodan Milosevic, em 2000. Mladic acabou preso em território sérvio em 2011 e transferido para Haia. Ao longo de seu julgamento, atacou repetidamente os magistrados, classificando o tribunal como um "filho das potências ocidentais" e afirmando ser alvo da Otan. 

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Condenação por limpeza étnica 

Além do genocídio de Srebrenica, Mladic foi considerado culpado por liderar uma vasta campanha de "limpeza étnica", destinada a expulsar populações não sérvias de regiões estratégicas para viabilizar o projeto de criação de uma "Grande Sérvia". 

A Justiça internacional classificou seus crimes como "alguns dos mais hediondos conhecidos pela humanidade". O ex-alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, chegou a descrevê-lo como uma "encarnação do mal". 

Até mesmo sua data de nascimento foi alvo de controvérsia. Mladic afirmava ter nascido em março de 1943, enquanto o tribunal considerava que ele havia nascido em 1942. 

Apesar das condenações e do amplo conjunto de provas reunidas ao longo dos anos, Ratko Mladic continua sendo exaltado por alguns líderes políticos sérvios e por parte dos sérvios da Bósnia. 

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