A polícia de Portugal reprimiu acampamentos contra a crise habitacional em Lisboa e no Porto, prendendo 31 pessoas e deixando feridos na madrugada de domingo. Os protestos denunciam a alta histórica dos aluguéis e a falta de moradia acessível, agravadas por um projeto de lei que flexibiliza despejos e o teto dos reajustes. A ação gerou fortes críticas de ativistas pela violência empregada, enquanto o país enfrenta um déficit estimado em 300 mil habitações, afetando sobretudo os jovens.
A polícia portuguesa desmontou um acampamento instalado no centro de Lisboa para protestar contra o agravamento da crise habitacional no país, dispersando manifestantes com cassetetes na madrugada deste domingo e efetuando 25 prisões.
Portugal enfrenta uma das crises de acessibilidade à moradia mais graves da Europa. Os preços dos imóveis mais que dobraram desde 2017, enquanto os aluguéis de novos contratos quase duplicaram, afetando especialmente os jovens.
Os protestos em Portugal refletem manifestações recentes na Espanha contra a escassez de moradias e a disparada dos aluguéis. Também houve protestos em cidades como Paris, onde pequenas manifestações estudantis sobre as condições das escolas evoluíram para protestos mais amplos contra a política econômica do governo.
Em Portugal, dezenas de policiais, alguns acompanhados por cães, avançaram sobre o acampamento na Praça do Rossio pouco depois das 2h da manhã (horário local). Antes da operação, os agentes haviam alertado os manifestantes de que as barracas seriam removidas caso não fossem desmontadas voluntariamente e ameaçado acusar de desobediência aqueles que resistissem.
POLÍCIA DIZ QUE AÇÃO FOI "PROPORCIONAL"
Os manifestantes haviam montado mais de 100 barracas após uma marcha realizada no sábado, que reuniu milhares de pessoas em uma das principais avenidas de Lisboa.
"Temos a obrigação de lutar pelo que acreditamos", disse um dos participantes da marcha, Vítor Gomes, de 21 anos, estudante de comunicação multimídia. Segundo ele, a especulação imobiliária, a concentração de riqueza e o aumento da desigualdade o deixam pessimista em relação ao futuro.
A polícia afirmou que a operação foi "proporcional" e informou que as 25 pessoas presas por desobediência foram posteriormente liberadas e deverão comparecer ao tribunal na segunda-feira.
NÚMEROS DIVERGENTES
Um acampamento menor, com cerca de 50 barracas, também foi desmontado na Praça D. João I, no Porto, onde a polícia efetuou seis prisões.
Enquanto a polícia relatou sete feridos leves, entre agentes e manifestantes, nas duas operações, o grupo ativista Casa para Viver afirmou que 60 pessoas ficaram feridas e convocou um novo protesto em frente ao Parlamento na terça-feira.
"Escolher a madrugada para soltar cães e avançar com cassetetes contra manifestantes pacíficos é uma decisão política. Isso mostra que este governo prefere reprimir quem denuncia a crise habitacional a enfrentá-la", afirmou o grupo.
Os manifestantes dizem que a escalada dos aluguéis e o aumento do custo de vida estão pressionando as famílias e transformando a moradia em uma fonte crescente de insatisfação social, especialmente entre os jovens.
O Banco de Portugal estima um déficit de 300 mil moradias em todo o país, o equivalente a todo o estoque habitacional de Lisboa.
Os manifestantes exigem que o governo retire um projeto de lei que facilita despejos e acaba com os limites para reajustes em novos contratos de aluguel. A proposta foi aprovada em uma primeira votação no Parlamento, embora o partido de extrema direita Chega tenha se abstido.