PERFIL/Andy Burnham, o 'rei do Norte' que agora mira Downing Street

Progressista, mas camaleônico, ele será o 1º premiê católico no Reino Unido

22 jun 2026 - 13h36

Por Alessandro Logroscino - Andy Burnham, 56 anos, é a personificação do norte da Inglaterra - a região mais profunda, popular e distante do eixo londrino.

    Natural de Aintree, na região metropolitana de Liverpool - considerada a mais irlandesa das cidades inglesas -, Burnham vem de uma família operária e católica.

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    Filho de um técnico de telefonia e de uma telefonista, teve contato com a política desde cedo. Estudou em uma escola católica e chegou a ser coroinha antes de se filiar ao Partido Trabalhista, aos 15 anos. "Não sou particularmente praticante", admite hoje, mas destacando como a "doutrina social" da Igreja o inspirou.

    Um background inédito entre os primeiros-ministros britânicos, tendo em vista o cisma anglicano e o antipapismo da coroa no passado. Formado em literatura inglesa pela Universidade de Cambridge, foi lá que conheceu a companheira de estudos Marie-France "Frankie" van Heel, holandesa, ex-jornalista e hoje gestora na área ambiental. Os dois se casaram em 2000 e têm três filhos: Jimmy, Rosie e Annie.

    Apaixonado por música e esportes - toca guitarra, joga futebol e torce para o Everton -, Burnham é conhecido pelo jeito próximo e simples com as pessoas. Sua trajetória política começou cedo: foi assistente parlamentar e, em 2001, aos 31 anos, elegeu-se deputado na Câmara dos Comuns.

    Integrante da ala progressista moderada do partido, a chamada "soft left" ("esquerda suave"), Burnham inicialmente apoiou as pautas pró-mercado do New Labour, o bloco mais à direita liderado por Tony Blair, e ocupou cargos como subsecretário de Estado. Foi com Gordon Brown, porém, que alcançou as secretarias da Cultura e da Saúde (equivalente britânico aos ministérios), retomando uma visão mais favorável à intervenção estatal.

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    Após a derrota trabalhista nas eleições de 2010 e o retorno à oposição, Burnham tentou pela primeira vez a liderança do partido, mas ficou em quarto lugar entre cinco candidatos.

    Alinhou-se então ao vencedor, Ed Miliband, também da "soft left". Nova tentativa em 2015: era favorito, mas acabou em segundo, muito atrás do ultraesquerdista Jeremy Corbyn.

    Hábil em transitar entre diferentes correntes, ele é filiado tanto ao grupo "Amigos Trabalhistas de Israel" quanto ao "Amigos Trabalhistas da Palestina". Mesmo assim, encontrou um modo de conviver com o controverso Corbyn, que o nomeou secretário-sombra do Interior. Foi nesse período que veio o Brexit - que Burnham sempre combateu.

    Hoje, diz querer superar o tema com uma reaproximação parcial à União Europeia, nos moldes do que prometeu o atual premiê Keir Starmer. Mas descarta qualquer retorno pleno à UE em um horizonte de 20 a 30 anos, ciente de que o euroceticismo ainda é forte até entre as bases trabalhistas mais tradicionais - especialmente em seu próprio reduto eleitoral.

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    Em 2017, Burnham deixou Westminster para disputar e vencer a eleição para prefeito da Grande Manchester, uma região pós-industrial marcada pelo declínio desde a era Thatcher.

    Reeleito duas vezes com amplo apoio popular, aproveitou o cargo para consolidar sua imagem e enraizamento político, a ponto de ser apelidado de "rei do Norte".

    Foi ele quem enfrentou o governo conservador de Boris Johnson durante a pandemia de Covid-19 e construiu o chamado "modelo Manchester" - um laboratório político baseado em inovação, reindustrialização parcial e expansão imobiliária com parcerias privadas, mas sem abrir mão de forte presença estatal em áreas como educação, serviços públicos e transporte.

    Agora, após vencer a eleição supletiva para o Parlamento no distrito de Makerfield, contendo o avanço da direita populista de Nigel Farage, Burnham encara o maior desafio de sua carreira: reerguer um partido em crise, comandar o governo nacional e lidar com os grandes conflitos geopolíticos da atualidade.

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