O partido Rússia Unida, apoiado por Vladimir Putin, ampliou sua maioria qualificada na Duma com 57,83% dos votos na primeira eleição legislativa russa desde a invasão da Ucrânia. O pleito, que excluiu partidos contrários à guerra e ocorreu também em áreas ucranianas ocupadas, registrou recorde de participação. A votação foi marcada por sanções internacionais, ciberataques e ofensivas ucranianas com drones em Moscou e Kherson, levando o governo russo a prometer intensificar os ataques contra Kiev.
Com mais de 95% das urnas apuradas, o Rússia Unida assegurou ampla maioria na Duma. O partido apoiado por Vladimir Putin obteve 57,83% dos votos, um avanço de oito pontos percentuais em relação aos 49,8% registrados em 2021, na última eleição para a Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo. A legenda amplia, assim, sua maioria qualificada, obtida ao superar a marca de 300 deputados, o que lhe permite aprovar mudanças constitucionais sem o apoio de outras siglas.
Esta foi a primeira eleição legislativa realizada desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 2022. Em entrevista coletiva, a presidente da Comissão Eleitoral, Ella Pamfilova, comemorou o que classificou como um recorde de participação, superior a 59%. "Trata-se da maior taxa de comparecimento já registrada em eleições desse nível", afirmou.
Os resultados definitivos deverão ser anunciados na sexta-feira (25). Dmitri Medvedev, ex-presidente da Rússia e atual líder do Rússia Unida, afirmou que os primeiros resultados demonstram a confiança da população no governo. Ele prometeu "apoiar a linha definida pelo presidente" e "aproximar o país da vitória".
Nenhum partido que se opõe ao conflito com a Ucrânia foi autorizado a disputar o pleito. Foi a primeira eleição realizada desde o início da ofensiva em grande escala contra o país, em 2022. O único partido contrário ao conflito, o Iabloko, foi excluído da disputa. A votação também ocorreu nos territórios ucranianos ocupados e anexados pela Rússia. As autoridades eleitorais comemoraram ainda o aumento da participação, que chegou a 56,7%.
O último dia de votação foi marcado por uma ofensiva ucraniana que envolveu mais de mil drones e matou duas pessoas na periferia da capital russa, segundo as autoridades. Em Moscou, uma refinaria foi danificada, de acordo com o prefeito Serguei Sobianin, que denunciou uma ação "claramente planejada com o objetivo de perturbar as eleições".
Um drone ucraniano também atingiu um ônibus na região de Kherson, no sul da Ucrânia sob controle russo, matando duas pessoas, entre elas uma funcionária da Comissão Eleitoral, informou o órgão.
À noite, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que Moscou "continuará e intensificará" os ataques com "armas de alta precisão contra alvos militares em Kiev" em resposta às ofensivas. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou que os ataques da Ucrânia "tiveram um impacto significativo na região de Moscou".
O líder ucraniano também conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que nos últimos dias exigiu que Kiev interrompesse os ataques contra refinarias russas. Zelensky afirmou que terá um encontro em Nova York nos próximos dias com o presidente americano, com quem discutiu "medidas" para a desescalada do conflito.
Ataques cibernéticos
Paralelamente, a Comissão Eleitoral anunciou ter detectado milhares de ondas de ataques destinadas a sobrecarregar o sistema de votação eletrônica, além de ofensivas contra "a infraestrutura de telecomunicações da Rússia como um todo".
"Os ataques foram conduzidos por grupos altamente profissionais e bem coordenados, utilizando ferramentas de inteligência artificial", declarou Ella Pamfilova, mencionando tentativas que apresentavam "sinais de interferência ucraniana".
A votação ocorreu em um contexto social tenso. A Rússia enfrenta sanções econômicas ocidentais, ataques ucranianos frequentes, escassez de combustível e restrições ao funcionamento da internet em várias regiões. Vitali Ivanov, de 63 anos, aposentado do metrô de Moscou, disse à AFP que votou "nos comunistas". "Minha aposentadoria é pequena, não dá para viver", afirmou.
"Não à guerra!"
Em Berlim, que abriga uma das maiores diásporas de russos que deixaram seu país, algumas dezenas de apoiadores da oposição no exílio protestaram aos gritos de "A Rússia será livre!" e "Não à guerra!", constatou um jornalista da AFP.
Em Londres, cerca de cem pessoas se reuniram diante da embaixada russa. Algumas exibiam bandeiras ucranianas; outras carregavam cartazes com a mensagem "Say no to Putin" ("Diga não a Putin"). A União Europeia denunciou eleições realizadas em um clima de "repressão sistemática e institucionalizada".
Com AFP