Papa Leão XIV alerta contra 'ilusão do rearmamento' na Europa

Segundo o pontífice, o continente pode acabar com 'espiral de mentira'

28 set 2026 - 08h34
(atualizado às 08h49)
Resumo
Em discurso em Metz, na França, o papa Leão XIV alertou a Europa contra a "ilusão do rearmamento", defendendo a paz ativa, o multilateralismo e o respeito ao direito internacional diante de conflitos como a invasão da Ucrânia. O pontífice ressaltou as raízes cristãs do continente e pediu acolhimento digno a migrantes. Presente no evento, o presidente Emmanuel Macron reforçou o apelo contra nacionalismos e divisões, encerrando a histórica visita papal de quatro dias ao país.

O papa Leão XIV alertou nesta segunda-feira (28), em discurso em Metz, última etapa de sua viagem à França, que a Europa não deve cair na "ilusão do rearmamento".

Em seu pronunciamento, o líder da Igreja Católica disse que os "repetidos apelos para aumentar as despesas militares são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia", porém ressaltou que "promover a paz é uma tarefa ativa".

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"Certamente, a busca pela paz na Europa, tal como no resto do mundo, não deve ser confundida com um irenismo ingênuo, mas é preciso ter cuidado com a ilusão do rearmamento", declarou o Papa, que prestou homenagem a Robert Schuman, um dos pais fundadores da União Europeia.

Leão XIV também lamentou o ressurgimento da guerra na Europa, em referência implícita ao "massacre inútil" na invasão da Rússia à Ucrânia, que "causa todos os dias inúmeras vítimas civis".

"Hoje é preciso perguntar-nos se estamos realmente fazendo esforços criativos para promover a paz mundial ou se estamos simplesmente tentando conter a hemorragia da guerra e nos preparar melhor para aquelas que presumimos que ainda estejam por vir", salientou.

Além disso, o Papa criticou o desrespeito crescente ao direito internacional e ao multilateralismo, elementos que "sublinham a igualdade efetiva dos Estados nas suas relações mútuas e constituem o melhor antídoto contra a vontade de dominar, que está na origem de cada conflito".

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"Hoje em dia, as relações humanas e as relações entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras. O valor da palavra dada é desprezado; em vez disso, a mentira e o engano são motivos de orgulho", afirmou. Para Robert Prevost, "a Europa pode pôr fim a esta espiral graças ao respeito pelo outro que soube cultivar e preservar" nos últimos 80 anos.

No pronunciamento, o Papa também argumentou que não é possível falar sobre o continente "sem fazer referência ao cristianismo", citando palavras de Schuman e do italiano Alcide De Gasperi, outro pai fundador da UE. "Longe de ser um critério exclusivamente confessional, a referência à dívida da cultura europeia para com o cristianismo permite compreender melhor até que ponto a abertura ao transcendente é sempre uma dimensão constitutiva da pessoa humana e uma fonte viva de civilização", disse.

O pontífice ainda abordou a questão migratória, que tem dominado a pauta em diversos países europeus ao longo dos últimos anos e servido de motor para o crescimento da extrema direita, inclusive na França. Segundo Leão XIV, é preciso cooperar contra os "traficantes" e promover "políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra", porém também é necessário "acolher" quem arrisca a própria pele em busca de uma vida melhor.

"Acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família, oferecendo-lhe a possibilidade de desenvolver os seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa que a acolhe", afirmou, pedindo "uma redescoberta criativa das nossas raízes e, ao mesmo tempo, uma escuta atenta do outro".

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Macron

O presidente francês, Emmanuel Macron, também discursou no evento e cobrou que a Europa recupere o espírito de seus fundadores para "não ceder ao fechamento, ao ódio contra o outro e ao retorno dos nacionalismos que dividem".

Papa e Macron participam de evento sobre Europa em Metz, na França

"Aqui bate o coração milenar da Europa, uma Europa que protege, une e age. Uma Europa soberana e democrática, estimulada por este projeto de paz e prosperidade", destacou o chefe de Estado.

O Papa está na França desde a última sexta-feira (25) e é o primeiro pontífice a visitar o país em 28 anos. Além de Metz, ele passou pela capital Paris e por Lourdes, onde se reuniu com vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica.

Seu último compromisso antes de retornar a Roma será uma missa na Catedral de Santo Estêvão, também em Metz.

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