Papa diz que Deus rejeita preces de quem 'faz a guerra' e não pode ser usado para justificar conflitos

Em plena celebração neste Domingo de Ramos, diante de dezenas de milhares de fiéis na Praça São Pedro, o papa Leão XIV afirmou neste domingo (29) que "Deus não pode ser invocado para justificar guerras" e rejeitou qualquer tentativa de associar a fé cristã à violência. Em sua homilia, o pontífice destacou que Deus é o "rei da paz", que rejeita a guerra, acolhe os oprimidos e não legitima a destruição em contextos de conflito.

29 mar 2026 - 12h33
(atualizado às 12h39)

As declarações ocorrem em um momento em que guerras envolvendo potências globais continuam em curso, com destaque para o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e a guerra da Rússia na Ucrânia, ambos frequentemente acompanhados de discursos religiosos usados para justificar ações militares.

"Irmãos e irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz, que rejeita a guerra, que ninguém pode usar para justificar a guerra", afirmou o papa. "Ele não escuta as orações daqueles que fazem a guerra, mas as rejeita."

Nos últimos meses, líderes políticos e religiosos têm recorrido à linguagem da fé para sustentar narrativas de conflito. Autoridades dos Estados Unidos, incluindo integrantes do governo de Donald Trump, têm associado a ação militar a uma missão de defesa de valores cristãos. Já a Igreja Ortodoxa Russa tem defendido a invasão da Ucrânia como uma espécie de "guerra santa" contra o Ocidente.

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Durante a missa, Leão XIV dedicou orações especiais aos cristãos do Oriente Médio, em meio ao agravamento das tensões na região e às restrições impostas à prática religiosa em zonas de conflito. Ele afirmou que muitos fiéis "sofrem as consequências de um conflito atroz" e que, em diversos casos, não conseguem viver plenamente os ritos da Semana Santa.

O Vaticano também foi afetado por tensões recentes em Jerusalém. Mais cedo no domingo, o Patriarcado Latino afirmou que a polícia israelense impediu a entrada da liderança católica na Igreja do Santo Sepulcro, onde tradicionalmente ocorre a celebração do Domingo de Ramos. Segundo o comunicado, esta teria sido a primeira vez em séculos que líderes da Igreja foram barrados no local durante a data.

A polícia israelense declarou que o acesso foi negado por motivos de segurança, afirmando que todos os locais sagrados da Cidade Velha estavam fechados ao público e que a liberdade de culto seria mantida "sujeita às restrições necessárias".

Em sua mensagem, Leão XIV também alertou para o impacto humano das guerras em curso. "Durante a Semana Santa, os cristãos não podem esquecer quantas pessoas no mundo sofrem como Cristo sofreu. Suas provações apelam à consciência de todos. Elevemos nossas orações ao Príncipe da Paz para que sustente os feridos pela guerra e abra caminhos concretos de reconciliação e paz", disse.

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A celebração do Domingo de Ramos também marcou o início da Semana Santa no Vaticano, que este ano carrega um peso simbólico adicional devido à memória do papa Francisco, morto em uma segunda-feira de Páscoa após complicações de saúde.

Francisco havia vivido sua última Semana Santa de forma limitada no ano anterior, após internação por pneumonia, mas surpreendeu ao aparecer na Praça São Pedro no Domingo de Páscoa. Na ocasião, realizou sua última volta no papamóvel pela praça e cumprimentou os fiéis.

Leão XIV, primeiro papa nascido nos Estados Unidos, dará sequência às celebrações tradicionais da Semana Santa. Na Quinta-feira Santa, ele retomará o rito do lava-pés na Basílica de São João de Latrão, tradição que havia sido ampliada por Francisco ao realizar cerimônias em prisões e centros de refugiados. O Vaticano ainda não informou quem participará do rito deste ano.

Na Sexta-feira Santa, o papa presidirá a procissão no Coliseu de Roma, que relembra a Paixão de Cristo. No Sábado Santo, conduzirá a Vigília Pascal, e no Domingo de Páscoa celebrará a missa na Praça São Pedro antes de conceder a bênção solene da loggia da basílica.

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Com AFP

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