Número real de mortos em Gaza pode ser 35% maior que o divulgado, segundo pesquisa independente

O número de mortos na guerra em Gaza permanece desconhecido. Apesar do cessar-fogo, o território continua isolado do mundo pelas autoridades israelenses. No entanto, uma equipe de cientistas conseguiu realizar um estudo de campo independente, publicado na revista The Lancet Global Health, que revela um saldo muito maior de vítimas do que o anunciado pelas autoridades locais.

19 fev 2026 - 17h23

Enquanto o Ministério da Saúde de Gaza, ligado ao governo do Hamas, relatou 49.000 mortes nos primeiros 16 meses após o início da ofensiva israelense, a equipe de cientistas da Universidade Royal Holloway estima que o número real esteja mais próximo de 75.000.

"A melhor estimativa que temos é de cerca de 70.000 mortes. Mas, além do número exato, o mais importante a enfatizar é que o número real de mortes é significativamente maior do que os números oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde de Gaza. Esse é o ponto principal a ser lembrado. Há uma subestimação significativa por parte do Ministério da Saúde. Estimamos que a diferença seja de 35%", disse à RFI Michael Spagat, diretor do estudo e presidente da ONG Every Casualty Counts.

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Segundo ele, a documentação das mortes no pesquisa foi feita seguindo uma abordagem estatística muito semelhante às pesquisas de opinião pública. "Selecionamos uma amostra aleatória de domicílios em Gaza. Em seguida, compilamos uma lista de todos os membros do domicílio em 6 de outubro de 2023 e registramos o destino de cada um, especificamente se estavam vivos ou mortos", explicou.

"O princípio fundamental é que, se X por cento das pessoas abrangidas pela amostra morreram, extrapolamos para estimar que os mesmos X por cento da população total de Gaza morreram", completou.

O trabalho foi realizado em campo e não com documentos de hospitais ou autoridades locais. "Não usamos nenhum registro oficial. Um dos principais pontos era que nosso trabalho fosse completamente independente do Ministério da Saúde de Gaza, porque a precisão dos dados apresentados por ele foi questionada", afirmou.

Dados coletados em Gaza

Embora Spagat não estivesse pessoalmente em campo para o estudo, o parceiro palestino do projeto contava com pesquisadores baseados em Gaza. Para ele, o fato de a pesquisa ter sido conduzida por palestinos que vivem no território, que fazem parte da vida e da cultura local, pode ter tido um impacto positivo. "Acho que o maior impacto foi que as pessoas se mostraram mais dispostas a responder às perguntas, porque, é claro, ninguém é obrigado a participar de uma pesquisa. E é possível que, se pessoas completamente de fora estivessem envolvidas, elas fossem vistas com desconfiança e as pessoas preferissem não responder", analisou.

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"Não acho que a presença de habitantes nativos de Gaza influencie as respostas, já que eles apenas conduzem o questionário. Mas obtivemos uma taxa de resposta muito alta, e acredito que isso provavelmente se deve ao perfil das equipes de entrevista que utilizamos", disse.

O pesquisador lembra que a questão do número de mortos em Gaza é muito delicada. Levou algum tempo, mas o exército israelense finalmente reconheceu que as cifras divulgadas pelo Hamas eram, em geral, precisas, especificando, no entanto, que a maioria das vítimas não eram civis, ao contrário do que afirma o Hamas.

As autoridades de saúde em Gaza não fazem distinção entre civis e combatentes. Para Spagat, essa contagem é correta, porque não existe nenhuma base empírica para diferenciar. "Quando alguém chega e morre no hospital, como podem saber se era um combatente? Eles não têm informações confiáveis sobre isso. E nós também não temos nenhuma informação direta. Não pedimos às pessoas que especificassem se os mortos relatados eram combatentes ou civis. Portanto, provavelmente estamos lidando com uma mistura de ambos", afirmou.

"No entanto, acho que o que podemos afirmar com base na composição demográfica - ou seja, na mistura de idades e gêneros entre os mortos - é que uma porcentagem muito grande era certamente de civis", completou.

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Mulheres e crianças entre os mortos

As autoridades de saúde de Gaza relatam mais de 570 mortes desde que o cessar-fogo entrou em vigor em outubro passado, e a situação não melhorou.

"É importante enfatizar que nosso período de cobertura vai apenas até 5 de janeiro de 2025. Portanto, estamos com um atraso de pouco mais de um ano neste momento. E muitas pessoas morreram desde o término da nossa pesquisa. Há um cessar-fogo em princípio, mas, mesmo assim, há um fluxo constante de mortes violentas", destacou o pesquisador, que trabalha há décadas para estabelecer o número de vítimas de guerra em diferentes conflitos.

Para ele, Gaza se destaca pela grande porcentagem da população morta em um período muito curto. "Embora não seja um caso totalmente único, a porcentagem de mulheres, crianças e idosos entre os mortos é excepcionalmente alta. Provavelmente seria necessário recorrer a conflitos como o genocídio em Ruanda ou o genocídio no Camboja para encontrar números semelhantes", afirmou, reconhecendo não ter métricas perfeitas para todos os conflitos. "Pode haver outros que também apresentaram altas porcentagens de mulheres, homens, crianças e idosos mortos. Mas, pelo menos nos registros documentados, esse ponto se destaca."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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