Após o colapso de uma geleira causar enchentes devastadoras entre o Nepal e a China, equipes de resgate buscam cerca de 3 mil desaparecidos e retiram sobreviventes. Com apoio internacional, as operações enfrentam clima adverso e risco de novos desastres. Priorizando salvar vidas em meio a dezenas de milhares de afetados, o governo nepalês fez um apelo à comunidade global por auxílio contra a crise climática e suporte para a reconstrução, estimada em bilhões de dólares.
Emmanuel Derville, enviado especial da RFI à região de Bidur, e AFP
A base militar de Bidur se transformou em uma espécie de "bote salva-vidas" para a população. Uma longa fila de moradores aguarda diante do portão, mas soldados não permitem a entrada de ninguém. Eles estão ocupados atendendo as pessoas transportadas de helicóptero das áreas atingidas pelo desastre, enquanto pessoas tentam, a qualquer custo, voltar para casa. O Exército prometeu que todos serão atendidos, mas suas aeronaves estão concentradas na retirada dos moradores que ainda permanecem isolados.
"Estamos todos esperando um helicóptero para nos levar. Queremos voltar para o vilarejo. Já faz três dias que estamos esperando", conta um homem no local.
A prioridade é dada às pessoas mais vulneráveis. Januka acaba de reencontrar o filho de dois anos. "Ele frequenta uma creche do outro lado do rio. A enchente aconteceu depois que as crianças chegaram à escola. O prédio não foi atingido, mas a ponte foi levada pela água. Ele ficou mais de dois dias na escola", relata a mãe à RFI.
Quatrocentos metros adiante, cerca de dez folhas de papel foram afixadas em um muro. As listas reúnem os nomes das pessoas resgatadas por helicóptero. Todos procuram desesperadamente notícias de familiares.
Lal Maya aguarda o retorno dos três netos, que encontraram abrigo na casa de um vizinho. "Eles estão em uma casa que resistiu à enchente. Ela fica logo acima do mercado que foi devastado. Mas, se outra cheia acontecer, não sei se a casa vai resistir", diz preocupada.
Diante da falta de meios aéreos suficientes, as autoridades começaram a reabrir algumas vias de acesso. A cerca de 20 quilômetros ao norte de Bidur, os moradores do vilarejo de Dhunche puderam iniciar o retorno a pé antes de serem retirados por estrada, segundo informou a imprensa nepalesa na manhã deste sábado.
Socorristas intensificam buscas por 3 mil desaparecidos
Além da retirada de sobreviventes ainda isolados na fronteira, os serviços de resgate intensificaram neste sábado os esforços para localizar os desaparecidos entre o Nepal e a China, três dias após a enchente devastadora que engoliu vilarejos inteiros. Nas regiões atingidas, as autoridades ainda tentam localizar cerca de 3 mil pessoas, sendo 2.426 no Nepal e 556 na China.
Entre os desaparecidos estão centenas de turistas, peregrinos e trabalhadores estrangeiros empregados em obras de barragens em construção na região, além de um número cada vez maior de moradores dos vilarejos destruídos.
Dos dois lados da fronteira, os socorristas trabalham sob a ameaça de uma possível ruptura do lago formado na quarta-feira após o colapso da geleira sobre o rio.
Na sexta-feira, as operações de resgate chegaram a ser perturbadas por alertas sobre possíveis deslizamentos e novas enxurradas, posteriormente descartados.
No lado nepalês, mais de 80 socorristas ainda tentam alcançar um túnel pertencente ao canteiro de obras da barragem hidrelétrica Trishuli-3, em construção, onde cerca de 100 pessoas permanecem presas. Uma equipe especializada de resgate chegou da Índia para auxiliar nas operações, enquanto outra é aguardada da China. Mais de 350 trabalhadores e moradores já foram retirados da região.
"Os trabalhos para liberar o túnel foram intensificados na manhã de sábado", informaram os serviços do primeiro-ministro Balendra Shah. "Mas os esforços enfrentam dificuldades devido às condições meteorológicas desfavoráveis."
Reconstrução custará bilhões de dólares
Especialistas e cientistas atribuem a tragédia ao colapso de uma enorme geleira, inicialmente registrado por engano como um terremoto de magnitude 5,2, e que transformou, em questão de instantes, um rio tranquilo em uma correnteza devastadora.
Enchentes e deslizamentos de terra são frequentes durante a temporada de monções, entre junho e setembro, no Nepal, no Tibete e em toda a Ásia do Sul. Segundo cientistas, as mudanças climáticas estão aumentando a intensidade e a frequência desses fenômenos.
"Pedimos ajuda ao mundo para enfrentar as mudanças climáticas, um enorme desafio para o Nepal e para toda a região", declarou neste sábado o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal. "Essa é uma luta que exige o esforço de todos".
O ministro afirmou que o governo está totalmente mobilizado. "No momento, a prioridade continua sendo o resgate e salvar o maior número possível de vidas", declarou aos jornalistas. Embora ainda seja cedo para uma avaliação precisa dos danos, Khanal estimou que o custo da reconstrução chegará a "vários bilhões de dólares" e fez um apelo por "apoio da comunidade internacional".
A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) estimou na sexta-feira que 93 mil pessoas foram afetadas pela tragédia, descrevendo a situação como um "enorme trauma".
Na China, milhares de socorristas seguem tentando abrir caminho até o coração da área devastada, no posto fronteiriço de Gyirong, a 1.830 metros de altitude. Segundo a agência estatal Xinhua, mais de 500 equipes de resgate estão atualmente mobilizadas no local.
A emissora pública CCTV exibiu imagens de bombeiros usando barcos infláveis para atravessar uma torrente ou sendo içados por um poderoso drone. "A maior dificuldade é garantir a segurança dos nossos militares", declarou o oficial Jiang Wanqiang.