Com mais de 900 mortos após enchentes devastadoras, o Nepal enfrenta desafios extremos nas buscas por sobreviventes e no resgate de isolados. Diante da rápida decomposição das vítimas e da superlotação dos necrotérios, autoridades iniciaram enterros coletivos temporários de corpos não identificados na floresta de Devghat por razões sanitárias. Amostras de DNA foram coletadas para permitir futuras exumações pelas famílias, enquanto a China puniu internautas por divulgarem dados falsos.
Juliette Chaignon, enviada especial da RFI ao Nepal, e AFP
O Exército, a polícia e inúmeros voluntários trabalham sem parar para encontrar sobreviventes após a avalanche na fronteira do Nepal, levar alimentos às áreas afetadas e identificar as vítimas, em uma corrida contra o tempo.
Em Bidur, a cerca de 50 quilômetros de Catmandu, um acampamento do Exército nepalês serve como centro de comando para coordenar a busca pelos desaparecidos. Cerca de dez helicópteros decolam e aterrissam sucessivamente, sob o olhar angustiado de Manisha, de 19 anos, que veio sozinha de Catmandu.
"Meu pai morreu na tragédia. Minha mãe mora no exterior. Estou aqui para encontrar meu irmão e minha irmã, de 8 e 10 anos. Disseram que eles ainda estão vivos. Por favor, me ajudem a encontrá-los", implora.
Os dois estão presos do outro lado do rio Trishuli. A estrada foi destruída. Atrás de uma cerca de arame farpado, um militar anota o nome de Manisha. Ela espera embarcar em um helicóptero, mas há 30 pessoas à sua frente.
Ao lado dela, Ram, um agricultor, percorreu 12 horas de moto na esperança de obter notícias do genro e de um amigo. "Mesmo que tenham morrido, espero pelo menos que os corpos sejam devolvidos para que possamos identificá-los", conta.
Sobreviventes ainda aguardam resgate
Ainda há sobreviventes. Listas com dezenas de pessoas resgatadas são colocadas nas paredes do centro militar. Entre os resgatados estão Dawa, sua esposa e seus filhos, retirados de helicóptero após passarem três dias refugiados em uma área elevada próxima à aldeia onde vivem.
"Acho que entre 20 e 25 parentes meus morreram, e ainda há idosos presos na minha aldeia. Ninguém conseguiu resgatá-los até agora", relata o sobrevivente.
Cinco dias após a tragédia, apesar dos esforços mobilizados, as operações de resgate continuam difíceis em regiões isoladas, que se tornaram perigosas devido à enchente e às chuvas dos últimos dias.
As equipes de socorro seguem trabalhando sem descanso, em condições arriscadas e sob a ameaça de uma nova enxurrada. Um dos principais objetivos é resgatar cerca de uma centena de operários presos em um túnel. Mas com o passar das horas, as esperanças de encontrar sobreviventes no mar de lama e destroços que devastou aldeias inteiras diminuem a cada dia.
Familiares dos desaparecidos percorrem hospitais e necrotérios em busca de informações sobre seus entes queridos, especialmente em Bharatpur, no sul do Nepal, onde imagens de cadáveres são exibidas em uma tela.
Corpos sem identificação são enterrados
O trabalho é longo e difícil, conduzido sob forte pressão do tempo. No domingo (30), por razões sanitárias, o Nepal começou a enterrar vítimas antes mesmo da identificação dos corpos.
Segundo as autoridades nepalesas, os enterros são realizados após a coleta de amostras de DNA e, no caso das vítimas de religião hindu, têm caráter provisório. Após a identificação formal, essas amostras permitirão que as famílias exumem os corpos e realizem a cremação, conforme a tradição. Amrit Bahadur Rai, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, justificou a medida afirmando que "muitos corpos foram recuperados e começaram a se decompor".
Outro desafio é a capacidade limitada da infraestrutura diante da quantidade de corpos recuperados. O necrotério de Bharatpur tem lugar para apenas 20 corpos. As autoridades são obrigadas a armazenar cadáveres em instalações climatizadas da associação local de comerciantes.
Cemitérios temporários para as vítimas
Na planície, a cerca de 200 quilômetros dos vales de Rasuwa, onde a tragédia ocorreu na quarta-feira (26), as autoridades cavaram centenas de sepulturas na floresta de Devghat. Conhecida até então por suas trilhas de caminhada, a região foi transformada em um cemitério temporário para vítimas cujo estado de decomposição impede uma identificação imediata.
"Não tínhamos outra opção e precisávamos tomar essa decisão. Nossa principal preocupação era o risco para a saúde pública provocado pela rápida decomposição dos corpos", explicou Ganesh Aryal, administrador distrital de Bharatpur.
Segundo as autoridades, cada local de sepultamento é cuidadosamente registrado. Marcadores de identificação são colocados acima e abaixo das sepulturas e os dados de localização são arquivados, para permitir futuras exumações e identificações.
China pune internautas por divulgar números falsos
As autoridades chinesas puniram dez pessoas acusadas de divulgar informações falsas na internet sobre a enchente devastadora ocorrida na fronteira com o Nepal, informou a polícia nesta segunda-feira (31).
Os dez internautas insinuaram que o número de mortos e desaparecidos era muito maior do que os balanços oficiais, segundo um comunicado do departamento de cibersegurança do Ministério da Segurança Pública.
Um usuário de sobrenome Qiu escreveu na internet que "a imprensa fala em 1,4 mil mortos, mas, na realidade, 3 mil pessoas já haviam sido dadas como desaparecidas anteriormente". Outro usuário, de sobrenome Liu, também afirmou que mais de 3 mil pessoas morreram na China em consequência da enxurrada, segundo o comunicado das autoridades.