Clotilde Dumay, da RFI
Estão previstas para esta quinta‑feira (23), em Washington, conversas entre representantes israelenses e libaneses, enquanto Beirute defende a prorrogação do cessar‑fogo anunciado em 16 de abril. A trégua, no entanto, permanece frágil: apesar do acordo em vigor há dez dias, Israel manteve os bombardeios, que deixaram cinco mortos no Líbano na quarta‑feira (22), entre eles a jornalista Amal Khalil.
O presidente libanês, Joseph Aoun, acusou Israel de atacar jornalistas "deliberadamente" e denunciou "crimes de guerra". Após o início da guerra no Líbano em 2 de março, Israel assumiu o controle de uma faixa de território com aproximadamente dez quilômetros de largura ao longo da fronteira. De acordo com os dados oficiais mais recentes, pelo menos 2.454 pessoas foram mortas no Líbano nas seis semanas de guerra.
A questão central, segundo Joey Hood, é se Israel conseguiria de fato encerrar a guerra em território libanês. Para ele, a resposta exige distinções claras.
"Parar a guerra contra o Líbano? Sim. Contra o Hezbollah? Não exatamente. O objetivo de Israel é, antes de tudo, eliminar as ameaças do Hezbollah", afirma.
Ainda assim, Hood avalia que o momento atual pode representar uma inflexão histórica. "Trata‑se de um momento histórico para o Líbano, para falar com Israel e talvez chegar a um tratado de paz como o do Egito e da Jordânia, que já dura décadas", diz.
Trump e a separação dos dossiês
Nesse contexto, o ex‑diplomata afirma que o presidente norte‑americano, Donald Trump, considera possível até mesmo uma reunião entre o presidente libanês e o primeiro‑ministro israelense, Benyamin Netanyahu. Apesar disso, Hood ressalta que o dossiê libanês não seria decisivo para a principal frente de negociação internacional aberta por Washington: as tratativas paralelas com o Irã.
"Esses dois dossiês estão ligados, mas ao mesmo tempo são separados", afirma Hood. Segundo ele, Trump não permitirá que Teerã instrumentalize o cenário regional para seus próprios objetivos estratégicos.
A guerra fria que não diz o seu nome
Na avaliação do ex‑embaixador, desde a Revolução Islâmica, em 1979, o regime iraniano busca manter uma espécie de equilíbrio baseado em tensão constante, sem entrar em confronto direto com potências militares.
"Desde os anos 1980, ou até mesmo desde a revolução iraniana, o que o regime quer é uma espécie de guerra fria em toda a região, em que pode manipular, extorquir populações e governos para seus próprios objetivos, sem entrar em uma guerra quente com os Estados Unidos ou com Israel", afirma.
Segundo Hood, essa lógica foi alterada recentemente. "Trump mudou o jogo. Ele decidiu: não, teremos uma guerra quente até resolver a situação, e depois veremos se ele estava certo ou não."
Apesar disso, o atual período de cessar‑fogo prorrogado, sem prazo definido, sugere uma fase de espera estratégica. "Na minha opinião, é apenas uma pausa", afirma o ex‑embaixador. Para ele, ambos os lados acreditam que o equilíbrio de forças lhes é favorável.
O peso das sanções sobre o Irã
No caso iraniano, Hood destaca o impacto severo das sanções internacionais e do bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos. "O estrangulamento econômico americano contra o Irã é muito sério. Com o bloqueio marítimo e com sanções que já duram há muito tempo, a economia iraniana entrou em colapso", afirma.
Segundo ele, "a inflação está acima de 60%, a moeda iraniana praticamente não vale mais nada, e as condições de vida pioram dia após dia".
Os Estados Unidos, por sua vez, acreditam conseguir sustentar os custos econômicos dessa estratégia por mais tempo.
"Os Estados Unidos acham que sua economia pode absorver esses choques mais facilmente e por um período mais longo do que a economia iraniana", diz Hood.
Ele reconhece, no entanto, que há efeitos também para os norte‑americanos. O preço do galão de combustível já ultrapassou a marca de US$ 4. Ainda assim, segundo Hood, "não se trata da mesma proporção de impacto".
Na avaliação do ex‑embaixador, o maior peso das sanções recai sobre a população civil do Irã. "Não são os dirigentes que sofrem, é o povo iraniano que sofre mais", afirma.
Em regimes autoritários, segundo ele, a pressão popular tende a ser limitada. "As pessoas sabem que protestar muitas vezes equivale a correr risco de morte. Isso significa que a situação pode se prolongar por bastante tempo."
Negociar e combater ao mesmo tempo
Para Hood, negociações diplomáticas e confrontos militares não são processos excludentes.
"As negociações podem ser retomadas nos bastidores ou em Islamabad, enquanto o conflito continua no terreno. Vamos ver os dois acontecendo ao mesmo tempo", diz.
Para Hood, um acordo global passaria necessariamente por questões sensíveis como o programa nuclear iraniano, o Estreito de Ormuz, os mísseis balísticos e drones, além do apoio de Teerã a milícias no Líbano, Iraque e Iêmen. Mas, ao ser questionado se o Irã aceitaria essas exigências, ele é categórico: "Absolutamente não".
Segundo Hood, a principal diferença da atual estratégia norte‑americana em relação às administrações anteriores está na tentativa de tratar todos esses temas simultaneamente. "Trump quer abordar todos os dossiês ao mesmo tempo, e não apenas o programa nuclear, mesmo que esse seja o mais importante", afirma.
JD Vance, Witkoff e o peso político do cargo
Do lado dos Estados Unidos, as negociações vêm sendo conduzidas pelo vice‑presidente JD Vance, com encontros realizados em Islamabad e participação do emissário Steve Witkoff. Hood observa que a equipe ainda carece de experiência diplomática. "Eles não têm muita experiência, então ainda é cedo para tirar conclusões", diz.
Ainda assim, Hood destaca o simbolismo político da escolha. "O vice‑presidente americano representa o nível mais alto de contato entre Estados Unidos e Irã desde 1979, o que demonstra o grau de seriedade do lado norte-americano."
Hood diz lamentar que o Irã não aproveite essa configuração para buscar um acordo mais abrangente.
"Eu gostaria que os iranianos aproveitassem esse momento para tentar chegar a um acordo global, que tratasse de todos os dossiês, e não apenas de migalhas, como no passado", afirma. "Infelizmente, parece que estão deixando essa oportunidade passar."
Do lado iraniano, as negociações são conduzidas pelo presidente do Parlamento, sob mediação do Paquistão. Para Hood, esse papel é crucial.
"Como não temos relações diplomáticas desde 1979, quando o regime invadiu nossa embaixada em Teerã e manteve colegas meus como reféns por mais de um ano, precisamos de intermediários para avançar em certos temas", afirma.
Segundo o ex‑embaixador, atualmente "o Paquistão exerce esse papel de intermediário entre os dois países".