Três anos após o início do conflito, Gaza acumula mais de 74 mil mortos e 60 milhões de toneladas de escombros. Com 65% do território ocupado e inacessível, cerca de 2,1 milhões de palestinos sobrevivem confinados em áreas exíguas, enfrentando fome severa, crise hospitalar e abrigos precários. O bloqueio à entrada de ajuda humanitária e o impasse político em torno dos planos de paz aprofundam a catástrofe, deixando a população sem acesso a itens básicos de subsistência e moradia.
Rami al Meghari e Frédérique Misslin, correspondentes da RFI em Gaza e Jérusalem, com agências
Mais de 60 milhões de toneladas de escombros continuam espalhadas pelo território, dificultando tanto a busca por corpos quanto a retomada da vida cotidiana. Segundo dados das autoridades sanitárias de Gaza, pelo menos 74 mil palestinos morreram desde o início do conflito e cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas. Além disso, os serviços de saúde operam com metade da capacidade hospitalar anterior ao conflito.
A magnitude da destruição levou especialistas e organizações israelenses a denunciarem um genocídio em Gaza. Várias comissões de inquérito da ONU apontam para o mesmo crime e destacam especialmente o impacto da guerra sobre as crianças.
Moufid, de 12 anos, sonha em ser engenheiro. Ele vive na Cidade de Gaza com a mãe, Manar, e os dois irmãos mais novos. Os quatro sobreviveram aos três anos de bombardeios, fome e sucessivos deslocamentos forçados. Um dos filhos quase morreu em um ataque israelense. Ao lembrar do episódio, Manar ainda se emociona.
"Quando penso nisso, choro, mesmo que ele tenha sobrevivido, graças a Deus. Isso me tornou mais forte", conta Manar em entrevista à RFI, relembrando as longas horas de angústia em um hospital enquanto aguardava notícias do menino. Ela acrescenta que a unidade de saúde não tinha equipamentos adequados.
Quando o cessar-fogo foi anunciado, em outubro de 2025, Manar se juntou às multidões que retornavam ao norte da Faixa de Gaza. A travessia durou cerca de 15 horas a pé. "Você faria isso com crianças? Pelo caminho vimos mortos, crânios e corpos em decomposição", relata.
Ao chegar, ela e os filhos encontraram a casa destruída. A família passou meses vivendo em uma barraca. Durante o inverno, enfrentou chuvas, inundações e a presença constante de ratos.
Pelo menos 175 mil pessoas vivem tendas ou abrigos precários
Elsa Softic, adjunta da direção de operações da ONG Première Urgence, afirma que 65% do território de Gaza está ocupado e não está acessível para os palestinos. "Já estamos em situações de superpopulação, visto que 2,1 milhões de pessoas vivem em apenas 35% de um território que já era exíguo. Hoje, estima-se que existam pelo menos 175 mil pessoas vivendo em tendas ou em abrigos precários", diz, em entrevista à RFI.
Hoje, Manar aluga para ela e os três filhos um pequeno quarto no subsolo por cerca de 1.400 shekels por mês, o equivalente a pouco mais de R$ 2.270, mas acumula dívidas. O proprietário ameaça expulsá-la caso os atrasos continuem. "Ele me disse: 'Vou jogar suas coisas na rua. Vamos ver quem vai acolher vocês'. Fui obrigada a me endividar para fazê-lo parar de cobrar".
Temendo voltar a viver em uma barraca durante o inverno, Manar retirou o filho mais novo da pré-escola para economizar dinheiro. Em Gaza, até o ensino público exige pagamento.
"É completamente surreal e quase insultuoso para a população de Gaza que se fale de reconstrução enquanto as pessoas não têm com o que suprir suas necessidades básicas. Hoje, os pais se sacrificam para deixar seus filhos comerem. Os preços dispararam para valores astronômicos e estamos proibidos de entrar com o material necessário para o inverno, como novas tendas e cobertores", aponta Softic.
"Todos nos lembramos das imagens do inverno passado, de crianças morrendo de frio e tendas inundadas. A estação do inverno é muito difícil em Gaza e temos muito medo dessa situação", diz adjunta da ONG.
O impasse político da reconstrução de Gaza
O jornal francês Le Figaro ressalta que a reconstrução esbarra no impasse político. O plano de paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevê o desarmamento do Hamas e uma administração palestina tecnocrática, mas as negociações permanecem bloqueadas. Enquanto isso, Israel ampliou as áreas sob seu controle dentro da Faixa de Gaza e continua realizando operações militares contra o movimento islamista.
Enquanto as negociações sobre o futuro de Gaza seguem sem avanço, milhares de famílias tentam reconstruir a própria vida em meio aos escombros, falta de água, medicamentos, moradia e trabalho, além do temor de novos confrontos.
"O território sobrevive graças a sistemas de emergência e de improviso, mas que carecem de recursos essenciais para o seu funcionamento", afirma Elsa Softic. "A resposta humanitária é travada e, às vezes, até proibida", denuncia.
"Não há escassez [de suprimentos no exterior], há restrições: os itens existem e estão fora da Faixa de Gaza aguardando para entrar pelo único ponto de passagem que está aberto, mas isso é restringido pelas autoridades israelenses. O que mais falta é água potável, principalmente, mas também coisas que talvez nos pareçam distantes, como óleo de motor", afirma a representante da ONG.
A ONG Première Urgence calcula que cerca de 70% da população esteja em uma situação de forte crise alimentar. "Sem a ajuda humanitária, - que, embora restrita, ainda passa um pouco -, estaríamos em uma situação de nove em cada dez moradores de Gaza nessa condição", conclui Softic.