Moradores de Gaza seguem entre ruínas, fome e incertezas três anos depois do 7 de Outubro

Desde o início da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza segue mergulhada em uma grave crise humanitária. Embora um cessar-fogo tenha sido firmado em outubro de 2025, a reconstrução avança lentamente e grande parte do território permanece devastada. Milhares de famílias ainda vivem em prédios destruídos ou acampamentos improvisados, enquanto a infraestrutura segue em ruínas.

7 out 2026 - 13h08
Resumo
Três anos após o início do conflito, Gaza acumula mais de 74 mil mortos e 60 milhões de toneladas de escombros. Com 65% do território ocupado e inacessível, cerca de 2,1 milhões de palestinos sobrevivem confinados em áreas exíguas, enfrentando fome severa, crise hospitalar e abrigos precários. O bloqueio à entrada de ajuda humanitária e o impasse político em torno dos planos de paz aprofundam a catástrofe, deixando a população sem acesso a itens básicos de subsistência e moradia.

Rami al Meghari e Frédérique Misslin, correspondentes da RFI em Gaza e Jérusalem, com agências

Mais de 60 milhões de toneladas de escombros continuam espalhadas pelo território, dificultando tanto a busca por corpos quanto a retomada da vida cotidiana. Segundo dados das autoridades sanitárias de Gaza, pelo menos 74 mil palestinos morreram desde o início do conflito e cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas. Além disso, os serviços de saúde operam com metade da capacidade hospitalar anterior ao conflito.

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A magnitude da destruição levou especialistas e organizações israelenses a denunciarem um genocídio em Gaza. Várias comissões de inquérito da ONU apontam para o mesmo crime e destacam especialmente o impacto da guerra sobre as crianças. 

Moufid, de 12 anos, sonha em ser engenheiro. Ele vive na Cidade de Gaza com a mãe, Manar, e os dois irmãos mais novos. Os quatro sobreviveram aos três anos de bombardeios, fome e sucessivos deslocamentos forçados. Um dos filhos quase morreu em um ataque israelense. Ao lembrar do episódio, Manar ainda se emociona. 

"Quando penso nisso, choro, mesmo que ele tenha sobrevivido, graças a Deus. Isso me tornou mais forte", conta Manar em entrevista à RFI, relembrando as longas horas de angústia em um hospital enquanto aguardava notícias do menino. Ela acrescenta que a unidade de saúde não tinha equipamentos adequados.  

Quando o cessar-fogo foi anunciado, em outubro de 2025, Manar se juntou às multidões que retornavam ao norte da Faixa de Gaza. A travessia durou cerca de 15 horas a pé. "Você faria isso com crianças? Pelo caminho vimos mortos, crânios e corpos em decomposição", relata. 

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Ao chegar, ela e os filhos encontraram a casa destruída. A família passou meses vivendo em uma barraca. Durante o inverno, enfrentou chuvas, inundações e a presença constante de ratos. 

Palestinos montam barracas para viverem em meio aos escombros de prédios residenciais destruídos ao longo dos anos de ofensiva israelense, na cidade de Gaza. Foto de 22 de setembro de 2026.
Palestinos montam barracas para viverem em meio aos escombros de prédios residenciais destruídos ao longo dos anos de ofensiva israelense, na cidade de Gaza. Foto de 22 de setembro de 2026.
Foto: RFI

Pelo menos 175 mil pessoas vivem tendas ou abrigos precários

Elsa Softic, adjunta da direção de operações da ONG Première Urgence, afirma que 65% do território de Gaza está ocupado e não está acessível para os palestinos. "Já estamos em situações de superpopulação, visto que 2,1 milhões de pessoas vivem em apenas 35% de um território que já era exíguo. Hoje, estima-se que existam pelo menos 175 mil pessoas vivendo em tendas ou em abrigos precários", diz, em entrevista à RFI.

Hoje, Manar aluga para ela e os três filhos um pequeno quarto no subsolo por cerca de 1.400 shekels por mês, o equivalente a pouco mais de R$ 2.270, mas acumula dívidas. O proprietário ameaça expulsá-la caso os atrasos continuem. "Ele me disse: 'Vou jogar suas coisas na rua. Vamos ver quem vai acolher vocês'. Fui obrigada a me endividar para fazê-lo parar de cobrar".

Temendo voltar a viver em uma barraca durante o inverno, Manar retirou o filho mais novo da pré-escola para economizar dinheiro. Em Gaza, até o ensino público exige pagamento. 

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"É completamente surreal e quase insultuoso para a população de Gaza que se fale de reconstrução enquanto as pessoas não têm com o que suprir suas necessidades básicas. Hoje, os pais se sacrificam para deixar seus filhos comerem. Os preços dispararam para valores astronômicos e estamos proibidos de entrar com o material necessário para o inverno, como novas tendas e cobertores", aponta Softic.

"Todos nos lembramos das imagens do inverno passado, de crianças morrendo de frio e tendas inundadas. A estação do inverno é muito difícil em Gaza e temos muito medo dessa situação", diz adjunta da ONG.

O impasse político da reconstrução de Gaza

O jornal francês Le Figaro ressalta que a reconstrução esbarra no impasse político. O plano de paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevê o desarmamento do Hamas e uma administração palestina tecnocrática, mas as negociações permanecem bloqueadas. Enquanto isso, Israel ampliou as áreas sob seu controle dentro da Faixa de Gaza e continua realizando operações militares contra o movimento islamista. 

Enquanto as negociações sobre o futuro de Gaza seguem sem avanço, milhares de famílias tentam reconstruir a própria vida em meio aos escombros, falta de água, medicamentos, moradia e trabalho, além do temor de novos confrontos. 

"O território sobrevive graças a sistemas de emergência e de improviso, mas que carecem de recursos essenciais para o seu funcionamento", afirma Elsa Softic. "A resposta humanitária é travada e, às vezes, até proibida", denuncia.

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"Não há escassez [de suprimentos no exterior], há restrições: os itens existem e estão fora da Faixa de Gaza aguardando para entrar pelo único ponto de passagem que está aberto, mas isso é restringido pelas autoridades israelenses. O que mais falta é água potável, principalmente, mas também coisas que talvez nos pareçam distantes, como óleo de motor", afirma a representante da ONG.

A ONG Première Urgence calcula que cerca de 70% da população esteja em uma situação de forte crise alimentar. "Sem a ajuda humanitária, - que, embora restrita, ainda passa um pouco -, estaríamos em uma situação de nove em cada dez moradores de Gaza nessa condição", conclui Softic.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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