Mona Lisa desaparece de livros escolares e mudanças reacendem debate sobre islamização da Síria

A retirada da Mona Lisa de um livro escolar, o desaparecimento de esculturas femininas de civilizações antigas e a alteração de imagens para mostrar meninas e mulheres com véu provocaram um intenso debate na Síria sobre o futuro do sistema educacional do país.

28 out 2026 - 11h50
Resumo
Novas autoridades islamistas na Síria geraram polêmica ao alterar livros escolares, removendo obras como a Mona Lisa e esculturas antigas, além de cobrir figuras femininas com véus e segregar gêneros em imagens. Enquanto o Ministério da Educação alega eliminar símbolos do regime deposto de Bashar al-Assad, educadores e ativistas denunciam uma tentativa de islamização conservadora e apagamento da diversidade cultural, somando-se a restrições recentes aos direitos e à educação das mulheres.

As mudanças foram introduzidas pelas novas autoridades islamistas que assumiram o poder no fim de 2024, após a queda do presidente Bashar al-Assad, e vêm sendo criticadas por educadores, ativistas e defensores dos direitos humanos, que veem nos novos manuais uma tentativa de redefinir a identidade nacional síria sob uma perspectiva religiosa mais conservadora.

Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, foi retirada do livro de história na Siria.
Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, foi retirada do livro de história na Siria.
Foto: © Wikimedia Creative Commons / RFI

As alterações atingem obras de arte, imagens e conteúdos históricos. A polêmica ganhou força na semana passada, quando o jornalista sírio Mohammad Salloum publicou nas redes sociais um levantamento baseado em estudo da organização Impact-se, divulgado em outubro.

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O relatório apontou uma série de alterações em novas edições dos livros oficiais de história, educação islâmica e ciências sociais. A AFP verificou diversas das modificações citadas consultando versões digitais dos manuais disponíveis em plataformas oficiais.

Entre as mudanças mais comentadas está a retirada da Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, do livro de história do quinto ano. Também desapareceram de um manual destinado ao equivalente ao segundo ano do ensino fundamental esculturas emblemáticas de antigas civilizações sírias, incluindo peças que retratavam figuras femininas.

Mulheres aparecem mais cobertas nos novos materiais

As mudanças também atingiram ilustrações e fotografias presentes nos conteúdos pedagógicos. Em um livro de educação islâmica destinado ao quarto ano do ensino fundamental, uma fotografia que mostrava homens e mulheres reunidos foi substituída por duas imagens separadas: uma apenas com homens e outra apenas com mulheres utilizando niqab, o véu que cobre praticamente todo o rosto.

Imagens compartilhadas por internautas sírios mostram ainda que duas meninas retratadas diante de um computador passaram a aparecer usando véu nas versões atualizadas do material.

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Em outro caso citado, uma escultura de um escriba foi modificada digitalmente e passou a aparecer vestida com uma camisa. Fotografias de dança também foram retiradas de um livro utilizado por alunos do sexto ano.

Ministério atribui mudanças à eliminação de símbolos do regime anterior

O Ministério da Educação da Síria confirmou as alterações. Em comunicado divulgado na segunda-feira (26), a pasta afirmou que os manuais foram modificados para eliminar símbolos do antigo regime e conteúdos ideológicos associados ao governo deposto de Bashar al-Assad.

Segundo o ministério, o objetivo também seria corrigir imagens e conteúdos vinculados ao período anterior. As autoridades não comentaram especificamente as críticas relacionadas à retirada de obras de arte, à representação das mulheres ou às demais modificações identificadas nos livros.

As reformas não começaram agora. Já em 2025 o governo havia promovido alterações nos programas de educação islâmica, história e geografia, além de eliminar referências ligadas ao partido Baath, que governou o país durante décadas.

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Críticos denunciam mudança ideológica

A organização Impact-se, especializada na avaliação de currículos escolares, considera que as modificações ultrapassam a simples remoção de símbolos do antigo regime. Segundo a entidade, os novos conteúdos refletem uma transformação ideológica mais ampla.

Na avaliação do grupo, as mudanças buscam reformular a "identidade nacional síria, a memória histórica, os valores cívicos e a visão do país" sobre seu papel na região por meio de uma perspectiva que aparenta estar alinhada ao islamismo político.

O advogado e ativista de direitos humanos Michel Chammas criticou publicamente as reformas. Em publicações nas redes sociais, ele defendeu que os currículos sejam revisados com base em critérios pedagógicos e científicos e que reforcem a capacidade crítica dos estudantes.

Chammas argumenta que essa reflexão crítica já era limitada nos programas utilizados durante o governo Assad e afirma que o novo sistema deveria promover maior respeito à diversidade da sociedade síria.

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O ativista também acusou as autoridades de tentar impor uma narrativa ideológica às novas gerações. Como exemplo, citou o tratamento dado a opositores do Império Otomano executados em 1916, tradicionalmente apresentados como heróis nacionais e que, segundo ele, passaram a ser descritos de forma negativa em alguns materiais.

Medidas recentes alimentam preocupações

A controvérsia sobre os livros escolares ocorre em um contexto mais amplo de discussão sobre o rumo político e social da Síria desde a chegada dos islamistas ao poder, no fim de 2024.

Nos últimos meses, medidas adotadas pelas autoridades provocaram críticas de grupos de direitos humanos e de setores da sociedade civil. Entre elas estão restrições relacionadas às vestimentas em praias e limitações à venda de bebidas alcoólicas.

Em setembro, o Ministério da Educação anunciou ainda a proibição de acesso de estudantes mulheres a determinados cursos universitários.

No mesmo mês, uma tradicional escola privada de Damasco decidiu separar meninas e meninos a partir do ensino fundamental avançado. A instituição alegou problemas de assédio entre estudantes, embora tenha negado ter recebido orientações do governo para adotar a medida.

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Debate reflete disputa sobre identidade da nova Síria

Quase dois anos após a queda de Bashar al-Assad, a discussão sobre os livros escolares tornou-se um símbolo de um debate maior sobre qual será a identidade da Síria reconstruída depois de décadas de ditadura e anos de guerra.

Para seus defensores, as mudanças representam uma correção de conteúdos ligados ao antigo regime. Para os críticos, elas revelam uma tentativa de introduzir uma visão mais conservadora e religiosa da sociedade síria, com possíveis consequências para a educação, os direitos das mulheres e a diversidade cultural do país.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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