Os ministros do Interior da União Europeia realizaram uma reunião por videoconferência nesta terça-feira (4) para discutir a crise migratória em Ceuta, exclave da Espanha no norte da África, e concordaram em aumentar a "coordenação" para combater "atores externos maliciosos".
Realizado a pedido de Madri, o encontro virtual durou cerca de três horas e teve como objetivo chegar a uma posição unificada do bloco, após as divergências vistas na esteira da emergência da semana passada, sobretudo entre Espanha e Itália.
"Emergiu uma visão comum sobre a necessidade de continuar a combater implacavelmente o contrabando de migrantes, intensificar as repatriações, reforçar as fronteiras da UE, estabelecer parcerias sólidas com países terceiros e melhorar a capacidade de previsão", diz um comunicado divulgado pelo Conselho da União Europeia, presidido atualmente pela Irlanda, após o fim da reunião.
"Os ministros enfatizaram que a comunicação deve ser mais coordenada e consistente, particularmente para combater atores externos maliciosos envolvidos na manipulação de informações e na interferência estrangeira", acrescenta a nota.
Durante a videoconferência, o ministro do Interior da Itália, Matteo Piantedosi, buscou colocar panos quentes nas tensões com a Espanha e disse "compreender muito bem" a pressão migratória enfrentada pelo país ibérico. Na semana passada, Roma suspendeu por um mês o Acordo de Schengen, que regulamenta a livre circulação dentro da UE, para viajantes provenientes do território espanhol, alegando riscos de os migrantes que entraram em Ceuta tentarem chegar ao território italiano.
A medida provocou reações do governo espanhol, que acusou a Itália de "não estar à altura" da crise. "Gostaria de esclarecer de modo claro a natureza de nossa decisão sobre a retomada temporária dos controles nas fronteiras aéreas e marítimas. Não se trata, de modo algum, de uma medida contra a Espanha, é uma escolha de natureza preventiva, voltada a tutelar a segurança nacional", afirmou Piantedosi, que ainda expressou "sincera solidariedade da Itália".
O ministro do Interior da Itália, Matteo PiantedosiRoma defende que a UE financie a construção de centros de triagem para migrantes forçados em países terceiros, seguindo o modelo adotado em um controverso acordo com a Albânia, alvo de contestações na Justiça.
"O processamento de pedidos de asilo mediante procedimentos acelerados na fronteira e a realização de repatriações diretamente a partir de instalações geridas em países terceiros seguros constituem o mecanismo de dissuasão mais forte possível contra o tráfico de pessoas e os fluxos irregulares", disse o ministro do Interior.
Na última quinta-feira (30), 72 mil migrantes provenientes do Marrocos entraram em Ceuta a nado com o objetivo de chegar à Espanha continental e à UE. Segundo o ministro espanhol do Interior, Fernando Grande-Marlaska, 70 mil deles já foram repatriados.
"Não entendi o fechamento de Schengen por parte da Itália, me pareceu uma medida totalmente sem necessidade. Não havia qualquer risco de movimento secundário, já que Ceuta tem um regime especial", salientou Grande-Marlaska.
Já o ministro do Interior da Irlanda, Jim O'Callaghan, no papel de presidente da reunião, garantiu que a União Europeia está "pronta para apoiar" Madri. "Expressamos nosso apreço à Espanha pela rápida resposta à situação em Ceuta e nossas condolências pela trágica perda de vidas humanas", declarou. Cerca de 80 pessoas morreram afogadas tentando realizar a travessia.
"As fronteiras externas da UE são nossa responsabilidade compartilhada, e a migração exige uma resposta europeia unitária", acrescentou O'Callaghan.