Cuba não é Venezuela: o governo em Havana está aberto ao diálogo, mas Washington não deve pensar em repetir o que fez em Caracas, ou seja, decidir a seu próprio critério a futura liderança política da ilha.
Esta é a mensagem direta que o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, enviou a Donald Trump em sua primeira entrevista na televisão americana, à NBC News, em um momento delicado de negociações entre o castrismo e a Casa Branca.
Díaz-Canel não escondeu sua irritação quando a apresentadora do programa "Meet the Press", Kristen Welker, lhe perguntou se ele estaria "disposto a renunciar para salvar seu país".
Ele respondeu com firmeza: "Vocês fazem essa pergunta a outros presidentes? Fazem a Trump? É uma pergunta sua ou vem do Departamento de Estado dos EUA?".
Em seguida, acrescentou com determinação: "Em Cuba, as pessoas em posições de liderança não são eleitas pelo governo norte-americano. Somos um Estado livre e soberano. Desfrutamos de autodeterminação e independência e não estamos sujeitos aos desígnios dos Estados Unidos. É o povo cubano que decide se estou à altura da tarefa, não os EUA". Logo depois, ele concluiu sucintamente: "Renúncia não faz parte do nosso vocabulário". Em resumo, foi uma forma clara de encerrar o assunto e rejeitar a ideia de um "modelo venezuelano" ? "um chavismo sem Maduro" ? para gerir a transição em Cuba.
O presidente cubano reiterou que seu governo "tem interesse no diálogo sobre qualquer assunto". Mas esse diálogo "não deve impor condições, não deve exigir uma mudança no sistema político cubano".
As escaramuças diplomáticas continuam paralelamente às negociações: o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, acusou os Estados Unidos de "perseguir, pressionar e extorquir" outros governos para que encerrem, "sob falsos pretextos", a presença das Brigadas Médicas Cubanas em seus territórios.
Sua publicação no X ocorre logo após a divulgação de um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), baseado nos depoimentos de 71 profissionais cubanos em 109 países, que documenta reduções salariais entre 70% e 90%, confisco de documentos, vigilância política e ameaças contra familiares.
Guatemala, Honduras, Jamaica e Guiana rescindiram recentemente esses acordos (alguns dos quais vigoravam havia 25 anos), que permitiam o uso de médicos cubanos em seus territórios.
Enquanto isso, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Ryabkov, chegou a Havana e foi recebido com todas as honras pela liderança castrista.
Moscou anunciou que, durante a reunião, "foi reiterado o firme compromisso da Federação Russa em fornecer a Cuba o apoio necessário, incluindo ajuda material, em sua justa luta para defender a soberania do Estado".
Essa ajuda é cada vez mais necessária para uma população deixada à beira da exaustão, enfraquecida pela grave crise econômica e pelos constantes apagões.