"Pela primeira vez na história" desse ranking anual, criado em 2002, "mais da metade dos países do mundo (94) está em situação 'difícil' ou 'muito grave', quando eram apenas uma ínfima minoria (13,7%) em 2002", escreveu a RSF, que trabalha com cinco níveis em sua escala, de "muito grave" a "boa".
"Em 25 anos, a pontuação média de todos os países avaliados nunca esteve tão baixa", acrescenta a organização.
Os Estados Unidos, classificados como em "situação problemática", caíram sete posições e aparecem em 64º lugar, entre Botsuana e Panamá. Além dos ataques do presidente republicano à imprensa, esse contexto também se traduziu na detenção e posterior expulsão do jornalista salvadorenho Mario Guevara, que denunciava prisões de migrantes nos Estados Unidos, e na redução drástica do financiamento do sistema público de radiodifusão internacional americano.
Ao mesmo tempo, a parcela da população que vive em um país onde a situação da liberdade de imprensa é considerada "boa" despencou, passando de 20% para "menos de 1%". Apenas sete países do norte da Europa fazem parte dessa categoria: a Noruega está no topo do ranking pelo décimo ano consecutivo, seguido por Países Baixos (2°), Estônia (3°), Dinamarca (4°), Suécia (5°), Finlândia (6°) e Irlanda (7°).
A França se manteve na 25ª posição, assim como no relatório publicado em 2025, na categoria considerada "situação relativamente boa".
A Síria pós-Assad apresentou a maior recuperação no ranking em 2026 tendo subido 36 posições, agora no 141º lugar.
Já o Brasil, escalou 11 posições em comparação ao ano passado, indo da 63ª para 52ª no ranking. Segundo o diagnostico da RSF, "o governo de Luiz Inácio Lula da Silva traz de volta uma normalização das relações entre as organizações estatais e a imprensa, após o mandato de Jair Bolsonaro marcado por uma hostilidade permanente ao jornalismo".
Quedas impressionantes de liberdade de imprensa
"Os ataques contra jornalistas estão mudando. Ainda há jornalistas assassinados, ainda há jornalistas presos, mas as pressões também são econômicas, políticas e legais", destacou à AFP Anne Bocandé, diretora editorial da RSF.
Se o retrocesso se explica pelos conflitos armados, a organização também aponta o endurecimento dos regimes políticos nos últimos anos.
A RSF destaca as quedas espetaculares de El Salvador (143º), que perdeu 105 posições desde 2014 com o lançamento de uma guerra contra as gangues criminosas conhecidas como "maras", e da Geórgia (135º), que recuou 75 posições desde 2020 devido a uma "aceleração da repressão".
A maior queda em 2026 foi atribuída ao Níger (120º, queda de 37 posições), símbolo da "degradação da liberdade de imprensa no Sahel nos últimos anos", entre "os ataques de grupos armados e as juntas no poder", escreve a RSF.
"Alguns países eram referências em liberdade de imprensa, mas ela se deteriorou profundamente com a chegada de regimes militares, como no Mali (121º) ou no Burkina Faso (110º)", acrescenta Anne Bocandé.
A Arábia Saudita (176º, menos 14 posições), onde o colunista Turki al‑Jasser foi executado pelo Estado em junho, aparece ao lado da Rússia, do Irã e da China na última parte do ranking, encerrado pela Eritreia (180º), que ocupa a última posição há três anos.
Prisão e intimidação de jornalistas
Entre os cinco critérios de avaliação da RSF, o indicador legislativo foi o que mais se deteriorou em 2025.
"Leis de segurança nacional contra o terrorismo, por exemplo, ou para proteger o segredo de Estado, restringem cada vez mais o campo de atuação do jornalismo. A Rússia é campeã nesse aspecto, mas o impacto também é sentido em democracias", ressalta Anne Bocandé.
Outra estratégia são os chamados "procedimentos-bala", ou seja, ações judiciais por difamação, dano econômico ou alegação de disseminação de notícias falsas, que visam intimidar jornalistas.
Trata-se de um fenômeno mundial, ilustrado na Guatemala pelo caso do fundador do jornal El Periódico, José Rubén Zamora, condenado a vários anos de prisão após suas investigações sobre corrupção política. Mas a RSF também denunciou essa tendência na França em um estudo recente sobre a mídia local.
"As leis estão criminalizando cada vez mais os jornalistas, quando deveriam protegê-los", observa a diretora editorial da organização.
Ainda assim, "existem ferramentas", pondera ela, citando o regulamento da Comissão Europeia sobre a liberdade dos meios de comunicação (European Media Freedom Act), que entrou em vigor em 2025, e a diretiva europeia contra os "procedimentos-bala".
RFI e AFP