Paul Khalifeh, correspondente da RFI em Beirute
"São os Guardiões da Revolução que estão presentes e que, infelizmente, comandam a operação militar no Líbano. Essas pessoas falsificaram passaportes e entraram ilegalmente no país [...]. Esta guerra é, por excelência, a guerra de outros em nosso território." As declarações do primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, à emissora saudita Al-Hadath, no domingo (22), soam como uma dura crítica ao Hezbollah.
Antes respeitado, admirado ou temido por grande parte da classe política e da população, o Hezbollah é hoje mais criticado do que nunca. Dirigentes, políticos, jornalistas e analistas não poupam palavras. O partido xiita é abertamente acusado de "traição" por ter arrastado o Líbano para uma guerra devastadora com o objetivo de "vingar o assassinato, por americanos e israelenses, do líder supremo Ali Khamenei".
A legenda, que conta com uma bancada parlamentar expressiva e dois ministros no governo, encontra-se isolada, quase ostracizada. Seus representantes já não são bem-vindos em programas de TV, seus líderes são acusados de "antipatriotismo" e seus quadros são evitados.
Essa onda inédita de rejeição ao Hezbollah não se limita ao discurso público.
Embaixador do Irã expulso
Na terça-feira (24), o ministro libanês das Relações Exteriores, Joe Raggi, ligado ao partido cristão Forças Libanesas, anunciou a retirada da credencial do embaixador do Irã e determinou que ele deixe o país até domingo (29).
Já em 2 de março, poucas horas após o início da guerra, o governo adotou medidas sem precedentes: declarou ilegal o braço militar do Hezbollah, classificou como ilegais todas as suas atividades de segurança e encarregou o Exército libanês de aplicar essas decisões.
Dias depois, três combatentes do grupo, presos com armas enquanto seguiam para o sul do país para enfrentar tropas israelenses, foram levados a julgamento por um tribunal militar. Embora tenham sido libertados mediante fiança simbólica, o simples fato de terem sido processados foi considerado incomum.
O Hezbollah, por meio de seu secretário-geral Naïm Qassem e outros dirigentes, rejeita as acusações. O grupo afirma ter iniciado a guerra para "defender o Líbano" e responder às "violações contínuas do cessar-fogo por Israel". Segundo o movimento, cerca de 400 de seus membros foram mortos em ataques israelenses nos últimos meses, apesar da trégua firmada em novembro de 2024.
Nova geração de comandantes
O enfraquecimento político do Hezbollah contrasta com seu desempenho militar, que surpreendeu inclusive analistas israelenses.
O grupo havia saído bastante debilitado do último conflito com Israel (outubro de 2023 a novembro de 2024): perdeu seu líder histórico, Hassan Nasrallah, e seu sucessor designado, Hachem Safieddine; viu sua liderança militar ser desmantelada; sofreu milhares de baixas; e teve parte de sua infraestrutura destruída no sul do país.
Mesmo assim, voltou ao campo de batalha com grande poder de fogo, utilizando armamentos inéditos e enfrentando tropas israelenses em áreas onde se acreditava não ter mais presença.
Segundo o general reformado Elias Farhat, o Hezbollah reconstruiu sua capacidade com base na descentralização, organizando forças em pequenas unidades e adotando uma estratégia de defesa móvel. Em combates recentes, como na localidade de Taybé, o grupo conseguiu destruir vários tanques israelenses em curto espaço de tempo.
A reestruturação foi conduzida por uma nova geração de comandantes, entre 30 e 40 anos, que reorganizou a cadeia de comando, buscou reduzir vulnerabilidades — especialmente frente à inteligência israelense — e reformulou a doutrina militar.
Retorno à guerra híbrida
Especialistas apontam que o Hezbollah retomou uma estratégia de "guerra híbrida", combinando táticas de guerrilha com capacidades militares mais sofisticadas. O modelo remete à doutrina desenvolvida por Imad Mughniyeh, antigo comandante do grupo, assassinado em 2007.
Essa abordagem se baseia em unidades pequenas, mobilidade, ataques surpresa e uso integrado de armamentos avançados — um modelo que, segundo analistas, chegou a ser estudado por forças armadas ocidentais.
Para evitar infiltrações e rastreamento, o grupo passou a utilizar métodos de comunicação de baixa exposição tecnológica, como mensagens manuscritas e mensageiros humanos.
Apesar da interrupção de rotas tradicionais de abastecimento após mudanças na Síria, o Hezbollah continua a receber apoio por meio de redes de contrabando. O volume de ataques recentes — mais de 2.000 foguetes desde o início de março — indica que o grupo ainda dispõe de um arsenal significativo.
Segundo estimativas, mesmo após perdas, o Hezbollah pode manter dezenas de milhares de projéteis e sustentar operações por meses.
Força militar ainda relevante
O grupo também introduziu novos armamentos, incluindo mísseis antitanque mais avançados e projéteis de longo alcance. Em março, realizou ataques a cidades distantes da fronteira, demonstrando capacidade ampliada.
Em termos de efetivo, fontes indicam que o Hezbollah pode contar com cerca de 35 mil combatentes ativos e mobilizar até 50 mil reservistas.
Diante disso, o grupo aposta no desempenho militar para compensar perdas políticas recentes. Caso consiga evitar uma derrota no campo de batalha, acredita que poderá recuperar sua influência interna. Caso contrário, seguirá uma lógica de "sacrifício total", inspirada na tradição religiosa xiita.