Italianos rejeitam reforma da Justiça e impõem derrota a Meloni

'Não' triunfou em referendo constitucional com 54% dos votos

23 mar 2026 - 12h43
(atualizado às 13h32)

Os eleitores da Itália rejeitaram uma reforma constitucional sobre o sistema judiciário e impuseram uma dura derrota à premiê de direita Giorgia Meloni, que contava com a aprovação popular de uma das bandeiras de seu programa de governo para chegar fortalecida às eleições previstas para o ano que vem.

Giorgia Meloni havia se empenhado pessoalmente pela vitória do 'sim'
Giorgia Meloni havia se empenhado pessoalmente pela vitória do 'sim'
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

Com quase 100% das urnas apuradas, o "não" aparece com 53,8% dos votos, vantagem que não pode mais ser superada pelo "sim", com 46,2%, após referendo realizado no domingo (22) e nesta segunda-feira (23).

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O resultado chega após Meloni e ministros terem se dedicado pessoalmente à campanha eleitoral, com a premiê marcando presença constante na mídia ? inclusive no podcast do popular rapper Fedez ? para tentar mobilizar o eleitorado em prol do "sim".

A afluência de fato foi grande para os padrões italianos (58,9%), porém registrou números mais altos em regiões tradicionalmente de esquerda, como Emilia-Romagna (66,7%) e Toscana (66,3%).

A proposta promovia mudanças significativas na magistratura italiana, como a separação das carreiras de juízes e promotores, impedindo a troca de funções; a criação de um tribunal superior para disciplinar membros do Judiciário; a divisão do Conselho Superior da Magistratura (CSM), órgão de autogoverno da categoria, em duas entidades; e a alteração na forma de eleição dos membros do CSM, que passaria a ser feita por sorteio.

O governo alegava que a reforma, bandeira do finado ex-premiê Silvio Berlusconi, que dizia ser alvo de perseguições de magistrados, modernizaria a Justiça e evitaria que o trabalho de quem julga fosse contaminado pelo de quem acusa, porém não conseguiu convencer o eleitorado em uma votação que, para muitos, foi uma espécie de avaliação do próprio Executivo.

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Segundo pesquisa do instituto YouTrend, entre os eleitores do "não", 31% expressaram o desejo de dar um voto de oposição a Meloni, que, no comando de uma rara coalizão estável na Itália, assegurou inúmeras vezes que não entregaria o cargo em caso de derrota.

"A soberania pertence ao povo, e os italianos se expressaram claramente hoje. O governo cumpriu o que prometeu, implementando uma reforma da Justiça que constava em nossa plataforma eleitoral. Apoiamos essa reforma até o fim e, em seguida, demos a escolha aos cidadãos, que decidiram. E nós, como sempre, respeitamos essa decisão", declarou a primeira-ministra em um vídeo nas redes sociais  

O resultado do referendo foi recebido aos versos da música antifascista "Bella Ciao" no escritório da Associação Nacional de Magistrados (ANM) no Tribunal de Nápoles, enquanto manifestantes de esquerda em Milão pediram a renúncia da premiê.

A oposição acusava o Executivo de tentar aumentar o controle sobre o Judiciário, sobretudo com as mudanças no CSM e a criação de um tribunal disciplinar, e de não abordar problemas estruturais da Justiça, como o prazo dos processos e a superlotação carcerária.

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"Conseguimos! Viva a Constituição", escreveu no X o ex-premiê e líder do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), Giuseppe Conte, que encabeça o chamado "campo largo" de oposição com o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.

"Hoje se abre uma nova temporada, uma primavera política. Os cidadãos são protagonistas e pedem outra política, mais atenta às necessidades das pessoas e menos em proteger os políticos contra investigações", acrescentou Conte.

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