Especialistas militares concordam que a destruição dessas pontes visa isolar parte do sul do país, mas divergem quanto ao impacto real dessa estratégia no desenrolar da guerra.
"Em qualquer operação terrestre, uma das prioridades é perturbar os deslocamentos do inimigo e sua capacidade de circular livremente para se reabastecer", explica à AFP o especialista militar Riad Kahwaji.
O Litani separa "uma parte importante do sul" do Líbano do restante do território, e a estratégia israelense "terá um impacto considerável", prevê ele.
Na segunda‑feira (23), Israel voltou a atacar outra ponte, desta vez ligando o sul do Líbano ao leste do país, no mais recente ataque contra as infraestruturas ao longo do rio.
"Todos os que estão ao sul do Litani agora estão isolados, a menos que optem por trajetos mais longos passando por Hasbaya", pequena cidade no sudeste do país, na extremidade sul do vale do Bekaa, analisa Kahwaji.
O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, anunciou no domingo ter ordenado a "destruição imediata de todas as pontes sobre o Litani que servem a atividades terroristas, para impedir a passagem do Hezbollah e de armas para o sul".
O presidente libanês, Joseph Aoun, declarou que esses ataques "representam uma escalada perigosa e uma violação flagrante da soberania libanesa", vendo neles "um prelúdio para uma invasão terrestre".
Essas destruições alimentam o temor, amplamente difundido no Líbano, de que Israel esteja tentando esvaziar a região ao sul do Litani antes de uma ofensiva terrestre.
'Não precisam atravessar'
Mas os combatentes na linha de frente têm meios para continuar lutando sozinhos por vários meses, avalia o general aposentado Hicham Jaber, ouvido pela AFP.
As unidades do Hezbollah que lançam mísseis e drones ao norte do Litani também conseguem atacar as forças israelenses sem precisar se aproximar do inimigo, afirma ele.
"Os combatentes estão todos equipados. Eles não precisam atravessar o rio, a menos que necessitem de apoio logístico específico", acrescenta.
"O Hezbollah não vai se deslocar ao sul do Litani para lançar seus foguetes. Tudo o que puder ser transportado sem pontes será levado; o que não puder, será abandonado", explica Jaber.
Segundo ele, é possível atravessar o Litani a pé, já que é um rio raso, o que reduz o impacto militar da destruição das pontes.
Kahwaji discorda: para ele, "um rio, mesmo raso, é intransponível" quando se trata de transportar armas pesadas, que exigem veículos.
Uma estratégia antiga
A estratégia não é nova. Na guerra de 2006 contra o Hezbollah, Israel bombardeou 97 pontes e viadutos em território libanês, segundo dados oficiais, inclusive em áreas muito distantes dos combates.
A maioria dessas pontes foi reconstruída graças a doações de governos estrangeiros e de figuras políticas ou econômicas libanesas.
O Exército libanês anunciou em janeiro ter desmantelado as estruturas militares do Hezbollah ao sul do Litani. Mas o movimento xiita pró‑Irã entrou na guerra no Oriente Médio em 2 de março, para vingar a morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei, morto no primeiro dia dos ataques israelo‑americanos contra Teerã.
Desde então, Israel conduz uma vasta campanha de bombardeios no Líbano e avanços terrestres em uma zona tampão ao longo da fronteira, que já deixaram mais de mil mortos e mais de um milhão de deslocados.
Com AFP