A morte do líder radical Marco Pannella, conhecido como um dos protagonistas da luta pelos direitos civis na Itália nas últimas décadas e um dos fundadores do Partido Radical, completa 10 anos nesta terça-feira (19).
O político faleceu em 19 de maio de 2016 após uma piora nas funções vitais em decorrência de sua longa batalha contra tumores nos pulmões e no fígado.
O presidente da Itália, Sergio Mattarella, recordou a data, destacando que Pannella "deixou sua marca na história da República", enquanto a cidade de Milão inaugurou um jardim em homenagem ao político, localizado em frente à prisão de San Vittore, símbolo de suas campanhas em defesa dos direitos dos detentos.
Segundo o chefe de Estado, Pannella foi uma figura "excêntrica e não convencional", marcada por uma interpretação radical do pensamento liberal e por métodos inovadores de ação política.
Inspirado nos ensinamentos de Mahatma Gandhi, o político italiano utilizou greves de fome e sede, desobediência civil e protestos não violentos para levar temas negligenciados ao centro do debate público.
"O tema dos direitos civis, como expansão das liberdades constitucionais, foi o fio condutor de suas experiências políticas", afirmou o presidente, que também lembrou o compromisso de Pannella com causas humanitárias, o combate à fome mundial, a defesa do Estado de Direito, a oposição à pena de morte e a luta pela dignidade dos presos.
"O líder radical deixa um legado de valores até mesmo para aqueles que não compartilharam todas as suas batalhas", concluiu Mattarella.
Pannella era muitas coisas ao mesmo tempo. Antes de tudo, um líder partidário que quebrou paradigmas. Ele era capaz de revolucionar a forma como a política era comunicada e conduzida em uma Itália ainda presa a convenções obsoletas.
"A desregulamentação racional de todos os sentidos", resumiu ele próprio, citando Arthur Rimbaud, ao ser questionado sobre sua trajetória como líder do Partido Radical.
Em meio a um período marcado por "ideologias fortes", Pannella teve uma intuição: levar a política das fábricas e dos congressos para as casas e para a intimidade das pessoas. Daí suas batalhas em defesa dos direitos individuais e civis, que marcaram o ápice de uma carreira política de 60 anos.
Nos anos 1970, contribuiu decisivamente para a legalização do voto para os jovens de 18 anos, do aborto e do divórcio, para a descriminalização do uso de drogas leves e para o fechamento de manicômios.
A vitória do "não" no referendo de 1974 sobre a revogação da lei do divórcio foi uma aposta que Pannella venceu. Com isso, ele inaugurou a era das consultas referendárias.
Ao longo de 40 anos, promoveu 117 referendos e reuniu mais de 60 milhões de assinaturas, abordando temas que iam da proibição do financiamento público dos partidos políticos à energia nuclear. Esses desafios se entrelaçam com outra batalha de vanguarda: o aborto.
Mas o sucesso de Pannella não se define apenas pelas suas reivindicações. Ele também se caracteriza pela busca incansável por novas formas de ação política, sob a bandeira da desobediência civil e da não violência.
O líder passou a experimentar greves de fome e de sede, que utilizava para chamar a atenção política e midiática para uma ampla gama de causas: desde prisões superlotadas e a fome no mundo até o pluralismo na televisão pública.
Em 2002, durante uma greve de sede para protestar contra o impasse no Parlamento na nomeação do secretário-geral da República, chegou ao extremo de beber a própria urina, que descreveu como o "fruto do seu corpo".
Conhecido por seu jeito não convencional de fazer política, Pannella chegou a ser preso para denunciar os problemas do sistema carcerário. Além disso, se descreveu como "um laico que personifica as suas ideias".
Um líder que transformou o seu "ser material" numa ferramenta de combate, tal como a sua oratória, que levou ao limite. Foi ele quem levou ao extremo o obstrucionismo parlamentar: discursos intermináveis ? por vezes com sete ou oito horas de duração ? prolongados até altas horas da noite para travar a aprovação de leis.
E depois havia as estratégias de comunicação mais radicais: aparecer fantasiado de fantasma em direto na televisão durante o referendo sobre a caça em 1997, ou fumar um baseado em público em 1975 ? gesto que lhe valeu a prisão ? para defender a descriminalização. São apenas dois exemplos da postura de um líder inquieto e provocador.
Isso tudo o levou a romper abruptamente alianças políticas importantes, incluindo com a sua companheira de luta, Emma Bonino. Pannella contribuiu, de forma decisiva, para a personalização da política partidária. Ainda assim, fez da escuta e do diálogo com mundos diversos a marca de uma carreira sem fronteiras.
Passou de uma relação próxima com ativistas nos anos 1970 a uma aliança com Silvio Berlusconi em 1994. Conseguiu atrair tanto cantores pop como intelectuais sofisticados, misturando, na vida e na política, o erudito e o popular. Sem se fixar num lugar político pré-definido, manteve-se fiel às suas ideias ao longo de toda a trajetória.