Houthis aliados do Irã atacam Israel e aumentam temores de expansão da guerra

O grupo afirma ter disparado uma série de mísseis balísticos "almejando alvos militares israelenses sensíveis" em resposta aos ataques contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos.

28 mar 2026 - 07h16
Rastros de mísseis lançados do Iêmen contra Israel, avistados no céu sobre Hebron, Cisjordânia
Rastros de mísseis lançados do Iêmen contra Israel, avistados no céu sobre Hebron, Cisjordânia
Foto: Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Os houthis do Iêmen, aliados do Irã, reivindicaram neste sábado (28/03) seu primeiro ataque contra Israel desde o início do atual conflito no Oriente Médio.

O grupo afirma ter disparado uma série de mísseis balísticos "almejando alvos militares israelenses sensíveis" em resposta aos ataques contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos.

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Os houthis disseram ainda que suas operações continuarão até o fim da "agressão" em todas as frentes.

Mais cedo neste sábado, as Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram ter interceptado um míssil lançado do Iêmen.

Os houthis começaram a atacar navios no Mar Vermelho em novembro de 2023 e lançaram mísseis regularmente contra Israel após o início da guerra em Gaza
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O envolvimento direto dos houthis no conflito amplia os temores de uma expansão da guerra, segundo especialistas.

Para Jo Floto, chefe do escritório da BBC News no Oriente Médio, em Jerusalém, a intervenção abre uma nova frente do conflito na península Arábica.

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E segundo o pesquisador Farea Al-Muslimi, do centro de estudos britânico Chatham House, o novo desdobramento é de "enorme importância" diante da influência que os houthis mantém no Mar Vermelho.

O grupo já ameaçou bloquear e atacar o Estreito de Bab el-Mandeb, situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia. O estreito controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta cerca de 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo.

No último mês, a rota ganhou ainda mais importância ao se tornar uma alternativa para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, diante do fechamento do Estreito de Ormuz.

Em outros momentos, como durante a guerra em Gaza, o Estreito de Bab el-Mandeb já foi alvo dos houthis, que bloquearam a rota atacando navios, usando drones e mísseis.

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Ao ser questionado sobre o quão disruptivo seria outro bloqueio efetivo do estreito, Al-Muslimi afirmou que seria "um pesadelo".

"Já temos um pesadelo, e isso só o tornaria ainda pior", disse o especialista.

Os houthis se tornaram uma força poderosa no Iêmen
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Na quinta-feira (26/3), a agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou que os houthis — grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã— estariam prontos para assumir o controle do estreito como parte do que chamam de "forças de resistência".

"Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental", disse uma fonte militar iraniana à agência, acrescentando que os houthis já provaram que fechar a rota "é uma tarefa fácil para eles".

No dia anterior, a mesma Tasnim já havia publicado uma advertência feita por uma fonte: "Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de Ormuz com medidas imprudentes, devem ter cuidado para não adicionar outro estreito aos seus problemas", disse a fonte, em referência à movimentação de tropas americanas na região.

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Antes mesmo do ataque deste sábado, o líder houthi Abdul Malik Al-Houthi já havia reforçado as ameaças sobre uma escalda, dizendo que o grupo responderia militarmente a ataques dos EUA e de Israel caso os desdobramentos da guerra exigissem, segundo noticiou a Bloomberg.

À Reuters, um outro dirigente houthi, em anonimato, afirmou que eles estão "militarmente prontos" para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em apoio a Teerã.

"Estamos com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à liderança, que acompanha os desdobramentos e definirá a hora certa de agir", declarou.

Após as ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta sobre a possibilidade de ataques de houthis no Estreito de Bab el-Mandab.

"Embora o grupo terrorista houthi não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, os houthis continuam a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região", disse um aviso publicado pela Administração Marítima do Departamento de Transportes dos EUA na quinta-feira.

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Quem são os houthis?

Os houthis são um grupo armado político e religioso que defende a minoria muçulmana xiita do Iêmen, os zaiditas.

Eles se declaram parte do "Eixo da Resistência" liderado pelo Irã contra Israel, os EUA e o Ocidente em geral, juntamente com grupos armados como o Hamas e o Hezbollah, do Líbano.

Formalmente conhecido como Ansar Allah (Partidários de Deus), o grupo surgiu na década de 1990 e leva o nome de seu fundador, Hussein al-Houthi. O líder atual é seu irmão, Abdul Malik al-Houthi.

Como os houthis ocuparam grandes partes do Iêmen?

Os houthis ganharam grande força política no Iêmen no início de 2014, quando se levantaram contra o presidente iemenita Abdrabbuh Mansour Hadi, sucessor de Ali Abdullah Saleh. Eles chegaram a um acordo com seu antigo inimigo e tentaram conduzir Saleh de novo ao poder.

Os rebeldes tomaram o controle da província de Saada, no norte do Iêmen. E, no início de 2015, eles capturaram a capital do país, Sanaa, forçando o presidente Hadi a fugir para o exterior.

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A maioria da população do Iêmen vive em áreas sob o controle dos houthis
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A Arábia Saudita, vizinha do Iêmen, interveio militarmente para tentar derrubar os houthis e reempossar Hadi na presidência. A ação teve o apoio do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos.

Os houthis repeliram os ataques e continuaram a controlar grandes partes do Iêmen. Eles assassinaram Ali Abdullah Saleh em 2017, quando ele tentou trocar de lado e aliar-se aos sauditas.

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