Stéphane Geneste, da RFI em Paris
Mesmo antes do início do conflito, a economia iraniana já atravessava um período de grave turbulência. A inflação ultrapassou os 30% ao ano nos últimos sete anos. O poder de compra está em queda livre, enquanto o desemprego entre os jovens continua a aumentar.
Ao mesmo tempo, parte da mão de obra qualificada está deixando o país. Essa fuga de cérebros enfraquece ainda mais uma estrutura econômica já fragilizada. A moeda nacional está se desvalorizando e a confiança dos investidores está se deteriorando.
Nesse contexto, os investimentos estão se tornando escassos. No Irã, os investimentos não visam mais primordialmente o desenvolvimento de negócios ou a conquista de novos mercados. O objetivo, muitas vezes, é mais defensivo, voltado para a proteção do capital contra a instabilidade econômica e monetária.
Receita do petróleo sob pressão apesar de reservas consideráveis
Um dos maiores ativos do Irã continua sendo seus hidrocarbonetos. O país possui a terceira maior reserva de petróleo do mundo, e essa receita energética tem sido um pilar do modelo econômico iraniano por décadas. As receitas do petróleo financiam o Estado, sustentam as importações e, em certa medida, mantêm um grau de estabilidade social.
Mas esse modelo está agora sob forte pressão. As sanções ocidentais visam especificamente o petróleo iraniano e limitam sua venda nos mercados internacionais. Para contornar essas restrições, Teerã vende seu petróleo bruto a preços reduzidos, principalmente para a China. Pequim, assim, absorve grande parte das exportações de petróleo iranianas por meio de canais de pagamento alternativos que não utilizam o dólar e o euro. Ao mesmo tempo, a Rússia também desempenha um papel na economia iraniana, particularmente em termos de investimento.
No entanto, a guerra complica essa equação. O conflito aumenta os riscos logísticos, eleva os custos de transporte e enfraquece certas rotas de exportação. Essas interrupções podem ter um impacto direto nas receitas do país e desacelerar todo o sistema econômico.
Guerra e a estrutura do poder econômico: risco de aceleração da crise
A resiliência da economia iraniana também depende de sua estrutura interna. Uma parcela significativa do aparato produtivo é controlada pela Guarda Revolucionária, que ocupa uma posição central na economia do país. Esse complexo militar-econômico captura uma parcela substancial das receitas estratégicas. Esse sistema limita a transparência econômica e desvia recursos que poderiam ser investidos em desenvolvimento industrial ou infraestrutura.
Em tempos de guerra, essa dinâmica tende a se intensificar. Os gastos militares aumentam e a prioridade é dada à segurança em detrimento da produtividade econômica. A economia civil, portanto, é pressionada. O conflito, consequentemente, atua como um acelerador da crise. Ele aumenta os gastos públicos em um contexto de déficit crônico, exacerba a desconfiança monetária e incentiva a fuga de capitais. Também expõe a infraestrutura econômica a riscos diretos, como a destruição de portos ou locais de extração.
No curto prazo, a economia iraniana ainda consegue se manter graças a diversos fatores: suas substanciais reservas de energia, o apoio de parceiros estratégicos e um mercado interno de mais de 85 milhões de pessoas. Mas, no longo prazo, esses recursos podem se esgotar. A verdadeira questão, então, deixa de ser a sobrevivência imediata e passa a ser a capacidade do país de manter sua economia sem uma transformação profunda em sua organização e modelo econômico.