Diante de reforços militares dos EUA, Israel mantém em aberto a opção de atacar o Irã, embora sem sinais de guerra iminente. Paralelamente, a vitória democrata no Congresso americano abalou o mercado e fortaleceu a oposição interna contra Benjamin Netanyahu. Em meio a esse cenário, o presidente Isaac Herzog realiza consultas partidárias para decidir se encarrega Netanyahu ou Gadi Eisenkot de formar a nova coalizão de governo, com prazo decisivo se aproximando para a definição do premiê.
Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
Nos últimos dias, cada vez mais armamentos e mísseis de interceptação chegaram dos Estados Unidos e da Europa a Israel e a outros países aliados da região.
Dezenas de aviões de transporte e reabastecimento norte-americanos se encontram nas bases aéreas de Ovdá e Nevatim, no sul de Israel.
Segundo a TV pública, se houver uma nova etapa da guerra, os alvos dos Estados Unidos e de Israel devem incluir instalações nucleares e energéticas do Irã.
A RFI conversou com uma fonte de segurança israelense que confirmou que "todas as opções estão sobre a mesa", mas que a decisão não cabe unicamente a Israel neste momento e que qualquer ação depende principalmente dos Estados Unidos.
Ainda de acordo com esta fonte, as autoridades de segurança têm conhecimento de que "o regime iraniano trabalha para reconstruir suas capacidades militares" porque "o Irã nunca desistiu de atacar Israel".
A RFI também entrou em contato com dois dos maiores hospitais de Israel e recebeu a informação de que, por enquanto, não houve nenhuma movimentação para a transferência da infraestrutura para as instalações subterrâneas, procedimento padrão em caso de uma guerra iminente.
Derrota republicana e as reações em Israel
Os democratas conquistaram uma vitória expressiva nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3) nos Estados Unidos e retomaram o controle do Congresso, impondo um duro revés a Donald Trump.
Em Israel, do ponto de vista técnico, a derrota dos republicanos gerou quedas acentuadas nos preços das ações negociadas na Bolsa de Valores de Tel Aviv.
Mas a maior repercussão é política, em especial por parte da oposição interna ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Yair Lapid, líder da oposição ao governo, disse que a vitória democrata afastou qualquer possibilidade de um governo de união nacional liderado por Netanyahu.
Segundo ele, o primeiro-ministro israelense "coloca em risco a democracia do país e mantê-lo no cargo seria devastador para a posição de Israel na comunidade internacional".
Yair Golan, líder do partido Democratas, o bloco de esquerda de Israel, afirmou que os resultados das eleições norte-americanas revelam como "Netanyahu é tóxico tanto para Democratas quanto para Republicanos", em referência às duas legendas políticas dos EUA.
Segundo ele, os israelenses precisam escolher entre o "Israel de Netanyahu", que ele define como boicotado, isolado e atrasado, e um "Israel forte, avançado, livre e seguro", representado pelos partidos de oposição.
Negociações para formação de governo
Pouco mais de uma semana depois das eleições em Israel, os resultados eleitorais estão confirmados, mas a formação de um novo governo e o nome do próximo primeiro-ministro são questões ainda em aberto.
O processo pós-eleitoral está em curso: o presidente de Israel, Isaac Herzog, começou a receber os representantes dos 11 partidos eleitos. Cada uma das legendas deve dar sua recomendação sobre qual dos candidatos receberá a primeira oportunidade de formar um governo: Benjamin Netanyahu, do Likud, ou Gadi Eisenkot, do Yashar.
Na quarta-feira (4), três partidos se reuniram com Herzog; o Sionismo Religioso, liderado por Bezalel Smotrich, escolheu Netanyahu. O Shas, partido da ultraortodoxia judaica sefardita, que representa a comunidade ortodoxa de judeus de ascendência do Oriente Médio, também recomendou Netanyahu; já o Israel Beitenu, de direita, mas de oposição ao primeiro-ministro atual, deu voto a Eisenkot.
Nesta quinta-feira, o processo de recomendações termina com reuniões entre o presidente israelense e as demais bancadas, entre elas o Likud, partido de Netanyahu e que conquistou a maior quantidade de mandatos parlamentares, e o Yashar, de Eisenkot, que ficou em segundo lugar.
Além deles, os partidos árabes, que alcançaram um recorde histórico de 19 mandatos, também estão entre as legendas a serem recebidas. O Ra'am, partido ligado ao movimento islâmico em Israel, já confirmou oficialmente que irá recomendar Eisenkot.
Ao final dessas consultas, o presidente Isaac Herzog tem até no máximo o próximo dia 11 de novembro para anunciar o nome escolhido.
A partir daí, um dos dois candidatos - Netanyahu ou Eisenkot - vai ter 28 dias para tentar formar uma coalizão de 61 parlamentares. O prazo pode ser estendido por mais 14 dias. Se ainda assim não houver uma formação de governo, a missão ficará a cargo do outro candidato. Ou seja, aquele que não tiver sido nomeado em primeiro lugar pelo presidente israelense.