Fraude em resgates no Everest expõe rede que lucrava milhões com emergências falsas

Autoridades desarticularam um das redes de fraude de seguros mais sofisticadas do mundo

2 abr 2026 - 14h59
A fraude envolvia uma cadeia coordenada de comissões. Hospitais repassavam entre 20% e 25% dos valores às empresas de trekking e operadores de helicóptero
A fraude envolvia uma cadeia coordenada de comissões. Hospitais repassavam entre 20% e 25% dos valores às empresas de trekking e operadores de helicóptero
Foto: Getty Images

Ao menos 32 pessoas foram acusadas por crimes contra o Estado e organização criminosa no Nepal, no mais recente desdobramento de um esquema de fraudes em resgates de helicóptero em regiões de alta altitude. Nove suspeitos foram presos e os demais estão foragidos, segundo informações do jornal The Kathmandu Post. 

As acusações atingem operadores de resgate aéreo, médicos, administradores hospitalares e empresas de turismo, revelando a dimensão de uma rede que, segundo as autoridades, atuava há anos manipulando evacuações médicas para obter reembolsos inflacionados de seguradoras estrangeiras. 

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O esquema funcionava explorando um dos serviços mais críticos do turismo de aventura no Nepal: os resgates de helicóptero em áreas remotas do Himalaia ou Everest , muitas vezes a única alternativa para salvar vidas. 

Investigadores apontam que esse sistema foi sistematicamente abusado por uma rede organizada que transformou emergências médicas em oportunidades de lucro ilícito. Autoridades nepalesas classificaram o caso como um dos maiores golpes já registrados no setor de seguros do país, com impacto direto na reputação do turismo local.

Segundo a apuração, a fraude era executada por meio de diferentes estratégias coordenadas. Em um dos métodos, turistas estrangeiros eram persuadidos a relatar sintomas falsos após trilhas exigentes, como a caminhada até o Everest Base Camp, frequentemente sem plena consciência do esquema. 

Em outros casos, guias e funcionários de hospedagens induziam quadros clínicos, exagerando sinais de mal de altitude, inclusive incentivando práticas como consumo excessivo de água ou uso inadequado de medicamentos, para justificar evacuações emergenciais.

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Após o acionamento do resgate, o esquema avançava dentro das unidades de saúde. Hospitais registravam internações desnecessárias ou inflavam diagnósticos para aumentar os valores cobrados. 

Empresas de resgate, por sua vez, enviavam faturas às seguradoras estrangeiras com valores inflacionados, muitas vezes cobrando como se cada passageiro tivesse sido transportado individualmente, mesmo em voos compartilhados.

A investigação também revelou falhas estruturais na regulação e fiscalização desse tipo de serviço, o que permitiu que o esquema operasse por anos com relativa impunidade. 

Autoridades destacam que a combinação de difícil acesso geográfico, alta dependência de resgates aéreos e grande fluxo de turistas estrangeiros criou um ambiente propício para abusos.

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Rede estruturada e pagamentos em cadeia

A fraude envolvia uma complexa cadeia de comissões e repasses financeiros. Hospitais chegavam a redistribuir entre 20% e 25% dos valores recebidos para empresas de trekking e operadores de helicóptero. 

Guias turísticos também participavam do esquema e, em algumas situações, turistas eram recompensados financeiramente para colaborar com as fraudes.

Entre 2022 e 2025, foram identificados 4.782 pacientes estrangeiros atendidos em hospitais sob investigação, sendo 171 casos confirmados como fraudulentos. Apenas um hospital recebeu mais de US$ 15,8 milhões (R$ 81,6 milhões) ligados a atendimentos suspeitos.

Empresas de resgate também aparecem com cifras expressivas, com pedidos de reembolso que, em alguns casos, ultrapassam US$ 10 milhões, cerca de R$ 51 milhões. 

Diante da gravidade, o governo do Nepal já discute medidas mais rígidas de controle, incluindo revisão de protocolos médicos, auditorias independentes e maior supervisão sobre operadoras de turismo e serviços de evacuação aérea.

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Fonte: Portal Terra
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