Frédérique Misslin, correspondente da RFI em Jerusalém
Muitos moradores do enclave estão preocupados, já que centenas de milhares de palestinos deslocados dependem da ajuda humanitária. O processo de cadastro imposto por Israel às ONGs internacionais é realizado em várias etapas. As autoridades israelenses exigem uma lista de funcionários palestinos, oficialmente por razões de segurança.
As entidades acreditam que isso possa expor seus coladoradores a represálias. Elas alegam que a exigência israelense viola o direito humanitário e o princípio da neutralidade.
"A primeira consequência é que não podemos mais enviar funcionários internacionais, e isso acontece desde o início do ano. E também não podemos mais enviar suprimentos", relata Filipe Ribeiro, chefe da missão do Médicos Sem Fronteiras na Palestina.
Como consequência, esses colaboradores internacionais estão deixando Gaza. Isso representa dezenas de pessoas. Mas mil funcionários palestinos permanecem, o que permite a algumas entidades resistirem à pressão por um período. A MSF, por exemplo, tem medicamentos em estoque para cerca de dois meses.
"Não vamos interromper nossas atividades em 28 de fevereiro. Ainda temos funcionários presentes tanto em Gaza quanto na Cisjordânia que continuarão trabalhando o máximo possível. Enquanto tivermos suprimentos e medicamentos suficientes, continuaremos trabalhando no terreno", explica Filipe Ribeiro.
Apesar da discordância em relação às exigências de Israel, há organizações que tentam se adequar para não deixar de oferecer ajuda humanitária no enclave. A Oxfam também opera com equipes locais e antecipou as mudanças.
"Trabalhamos bastante com o setor privado, com supermercados, por exemplo. As famílias recebem uma certa quantia de ajuda e podem gastá-la em qualquer um dos supermercados da Faixa de Gaza com os quais trabalhamos. Mudamos nosso modelo operacional", diz Bushra Khalidi, diretora de políticas da entidade na Palestina.
Saúde palestina sacrificada
Apesar do cessar-fogo, assinado em outubro de 2025, milhares de palestinos ainda vivem em tendas, o que prejudica ainda mais a qualidade de vida da população em Gaza, já precarizada pela guerra. E o sistema de saúde entrou em colapso após dois anos de conflito. Neste contexto, Filipe Ribeiro explica que as ONGs acabam tendo que "se concentrar nas necessidades mais urgentes".
"Pacientes que sofrem de diabetes ou doenças cardiovasculares, por exemplo, precisam de apoio direto hoje em dia. Sem falar em tudo o que se relaciona às condições de vida. Doenças de pele, diarreia, infecções respiratórias, tudo isso está em ascensão. Está frio, é inverno. As condições de vida são absolutamente deploráveis. Tudo isso tem um impacto direto na saúde das pessoas. Sem falar na dignidade que lhes é negada, o que está acontecendo lá é indescritível", diz ele, indignado.
Algumas dessas organizações humanitárias são acusadas por israelenses de deslegitimar o Estado de Israel por meio de sua atuação. "A ação humanitária não pode ser condicionada ao silêncio. Quando há uma violação, ela deve ser denunciada", afirma Bushra Khalidi, da Oxfam. Para tentar reverter a situação, as ONGs entraram com uma petição na Suprema Corte de Israel, que ainda não emitiu sua decisão.