Três anos após os ataques de 7 de outubro, o trauma permanece latente em Israel, afetando tanto ex-reféns quanto a sociedade. O escritor Etgar Keret alerta que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu explora esse medo constante como estratégia política para desviar o foco de suas falhas. Paralelamente, o relato de Omer Shem Tov, que sobreviveu a 505 dias em cativeiro sob fome e trabalhos forçados, ilustra as sequelas psicológicas e a profunda ferida coletiva ainda não cicatrizada no país.
Em artigo de opinião no Libération, o escritor israelense Etgar Keret argumenta que o trauma do 7 de Outubro se transformou em um estado permanente da sociedade israelense. Segundo ele, a população vive como se o massacre ainda estivesse em curso, alimentada tanto pelas lembranças das vítimas e dos reféns quanto pelo discurso político do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Keret sustenta que Netanyahu utiliza a sensação constante de ameaça para evitar um acerto de contas sobre as falhas que permitiram os ataques de 2023. O autor cita os alertas recorrentes do governo sobre o Irã, tribunais internacionais e críticos da política israelense para defender que o medo se tornou parte da estratégia política.
O texto também critica iniciativas para excluir partidos árabes das eleições israelenses e denuncia tentativas de punir cineastas que lançaram documentários críticos à condução da guerra. Para o escritor, o risco é que o trauma coletivo se torne permanente e continue moldando a política israelense mesmo depois do fim dos combates mais intensos.
Traumas no cotidiano dos ex-reféns
O Le Monde traz o testemunho do israelense Omer Shem Tov, de 23 anos, sequestrado no Festival Nova e mantido por 505 dias em túneis do Hamas. Libertado em fevereiro de 2025, ele afirma que continua enfrentando crises de ansiedade e flashbacks frequentes, desencadeados até por situações banais do cotidiano.
O jovem descreve condições extremas de cativeiro, com fome, isolamento, trabalhos forçados e humilhações. Segundo seu relato, foi obrigado a transportar explosivos, carregar ajuda humanitária e executar diferentes tarefas para seus captores. Apesar da experiência, diz não alimentar desejo de vingança contra a população de Gaza, embora responsabilize o Hamas pela tragédia.
A reportagem destaca que, mesmo após a libertação dos últimos reféns em outubro de 2025, a ferida aberta pelo ataque, que matou cerca de 1.200 pessoas e resultou em 251 sequestros, permanece profunda em Israel.
Shem Tov decidiu transformar sua experiência em um livro e em uma campanha de depoimentos públicos, embora enfrente acusações e ataques nas redes sociais. Para ele, a religião foi fundamental para sobreviver psicologicamente ao período no cativeiro.