Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
A cúpula informal do Conselho Europeu vai debater a aplicação do plano "Accelerate EU", apresentado pela Comissão Europeia como uma estratégia para organizar e reforçar a reação dos países-membros. Diferentemente dos pacotes adotados em crises anteriores, a iniciativa não prevê nova injeção direta de recursos europeus, mas um conjunto de ferramentas para ampliar a margem de ação dos governos nacionais.
Entre as medidas está a flexibilização temporária das regras de auxílio estatal, permitindo cortes de impostos e medidas emergenciais para setores mais vulneráveis, além de apoio às populações mais afetadas pela inflação energética.
Bruxelas também aposta em acelerar a transição para energias limpas como resposta estrutural à crise. A estratégia inclui a mobilização de investimento privado e a proposta de uma cúpula dedicada ao financiamento da energia limpa.
A preocupação é urgente. Desde o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, a União Europeia já gastou € 24 bilhões adicionais na compra de combustíveis fósseis, segundo estimativas da Comissão.
Ao apresentar o plano, o comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, alertou para impactos duradouros. "Teremos meses muito difíceis pela frente, talvez anos. Mesmo no melhor cenário possível, a situação ainda é ruim", afirmou.
Aviação sob pressão
Um dos setores mais afetados pela disparada dos preços dos combustíveis é a aviação. Nesta semana, a Lufthansa anunciou a suspensão de 20 mil voos de curta distância.
Para evitar escassez, a Comissão Europeia quer coordenar o fornecimento de combustíveis e garantir abastecimento em aeroportos de todas as regiões do bloco, com uso de fontes alternativas ainda não detalhadas.
Também está prevista a criação de um Observatório dos Combustíveis, com monitoramento da produção, importações, exportações e níveis de reservas estratégicas. A medida busca agilizar uma eventual liberação de estoques de emergência.
No médio prazo, o bloco também discute um plano de eletrificação dos setores de transporte, indústria e construção, como parte da tentativa de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Ajuda à Ucrânia pode ser destravada
Além da crise energética, a cúpula em Chipre também deve avançar sobre o desbloqueio do pacote de € 90 bilhões em ajuda à Ucrânia. Zelensky participa do encontro por videoconferência e deve falar na abertura dos debates.
Com a derrota eleitoral, esta será a última cúpula do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que vinha barrando o pacote. O segundo fator que deve contribuir para o fim do veto é o anúncio do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de que os reparos no oleoduto Druzhba foram concluídos, o que permitiu a retomada do fornecimento de petróleo russo para a Hungria na quarta-feira (22) e a Eslováquia na manhã desta quinta. A questão era justamente o principal argumento de Orbán para bloquear o pacote.
Com isso, a Comissão Europeia já iniciou os procedimentos internos para destravar o empréstimo e preparar também um novo pacote de sanções contra a Rússia.