Mostra na Cinemateca de Paris redimensiona mito de Marilyn Monroe nos 100 anos de seu nascimento

Em 2026, quando Marilyn Monroe completaria 100 anos, a Cinemateca francesa apresenta uma exposição que revisita sua carreira, entre 1946 e 1962. Com figurinos, filmes e arquivos raros, a mostra Marilyn Monroe: 100 anos! conta como a atriz enfrentou contratos abusivos, censura e misoginia no auge de Hollywood. Morta em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn permanece subestimada como intérprete, embora continue celebrada como mito absoluto da cultura do século 20.

24 abr 2026 - 15h15

Na Cinematca de Paris, principal instituição de preservação do cinema na França, a exposição "Marilyn Monroe, 100 anos" propõe um reencontro com uma figura tão conhecida quanto sistematicamente mal compreendida. Longe de repetir o culto fetichista que costuma cercar a atriz, a mostra parte de uma pergunta incômoda: que tipo de estrela hollywoodiana Marilyn foi, de fato, entre 1946 e 1962, no auge do sistema de estúdios dos Estados Unidos?

"Posso ser inteligente quando isso importa, mas a maioria dos homens não gosta disso."

Dita em 1953 no filme Os Homens Preferem as Loiras, a frase escrita por Anita Loos e interpretada por Marilyn funciona como senha e síntese. Ela aponta para o paradoxo central de sua trajetória: celebrada como imagem absoluta de desejo, Marilyn continuou sendo tratada como intérprete menor, mesmo quando diretores e colegas reconheciam publicamente sua inteligência e disciplina.

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Alfred Hitchcock, por exemplo, resumiu a visão dominante ao afirmar que ela "carregava o sexo no rosto". Henry Hathaway, em sentido oposto, enfatizava "a inteligência de uma atriz extraordinária, que trabalha muito e quer sempre fazer melhor". Entre esses dois polos, erguia‑se uma carreira curta, filmada em Technicolor, promovida em telas panorâmicas e atravessada por contratos leoninos.

No espaço expositivo, a exuberância visual dos anos 1950 se impõe. Materiais publicitários, figurinos, fotos assinadas por Eve Arnold, Richard Avedon e Andy Warhol compõem o retrato de uma indústria que fabricava glamour ao mesmo tempo em que restringia brutalmente a autonomia de suas estrelas.

A curadora Florence Tissot explica que seu ponto de partida foi "mostrar qual estrela hollywoodiana Marilyn Monroe era, e o que isso significava na prática".

"No começo, eu confesso que fiquei bem insatisfeita, porque a gente se depara com uma quantidade enorme de análises que acabam sempre voltando para a biografia dela, interpretando - ou até exagerando - a leitura da vida pessoal. No fim, dá um pouco a sensação de que a gente fica girando em círculo. Então tem também essa questão: como se posicionar diante de todos esses relatos. E depois, outra dificuldade que eu senti foi conseguir acesso aos arquivos", afirmou.

Exposição “Marilyn Monroe: 100 anos!”, na Cinemateca de Paris, em 7 de abril de 2026.
Exposição “Marilyn Monroe: 100 anos!”, na Cinemateca de Paris, em 7 de abril de 2026.
Foto: RFI

Estrela de marketing antes de ser atriz

A exposição começa pelas imagens de uma jovem ainda chamada Norma Jean Baker, fotografada como pin‑up enquanto trabalhava em uma fábrica ligada à indústria aeronáutica durante a Segunda Guerra. O sorriso ingênuo, o enquadramento sugestivo e os objetos de conotação claramente fálica revelam, segundo Tissot, "toda a hipocrisia dos anos 50", quando puritanismo e erotização coexistiam sem constrangimento.

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Os Estados Unidos viviam a ascensão da revista Playboy e a divulgação do Relatório Kinsey sobre sexualidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, enfrentavam o rigor do Código Hays, um conjunto de regras morais que regulou o que podia ou não aparecer nos filmes produzidos por Hollywood durante mais de três décadas. 

Oficialmente chamado de Motion Picture Production Code, ele entrou em vigor em 1930, mas só passou a ser aplicado com rigor a partir de 1934, quando os grandes estúdios concordaram em submeter seus filmes a uma censura prévia.

Nesse contexto, Marilyn tornou‑se o rosto perfeito de uma sensualidade aceitável, desejável e, paradoxalmente, domesticada. Mas o estereótipo da "loira burra" embutia uma ideia profundamente misógina: a de que beleza, desejo e inteligência não poderiam coexistir em uma mulher.

A própria Marilyn denunciou isso em uma rara entrevista à NBC, em 1955, ao afirmar que "as pessoas associam as loiras, verdadeiras ou falsas, à estupidez. Não sei por quê. É uma visão muito limitada". Ainda assim, esse rótulo estruturou boa parte de seus papéis iniciais.

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Trabalho, estudo e um talento subestimado

Ao contrário da imagem de improviso, Marilyn estudou intensamente, antes mesmo de ingressar no famoso Actor's Studio, em Nova York. "Na verdade, desde o começo ela já fazia aulas, por vontade própria. Estudou canto, dança, interpretação e mímica e pantomima", conta Florence Tissot. "Isso não é muito conhecido, mas é importante lembrar, sobretudo diante dessa imagem de atriz meio inconsequente que se criou em torno dela. Na prática, ela queria ser uma boa atriz - isso era fundamental para ela. Era uma pessoa muito determinada", aponta a curadora.

Em filmes como Quando a Cidade Dorme e A Malvada, ambos de 1950, Marilyn aparece pouco, mas críticos como James Naremore identificam ali uma intérprete capaz de condensar medo, raiva, sedução e vulnerabilidade em poucos segundos. "Mesmo com cenas breves, ela empurra os limites dos personagens que lhe eram oferecidos", observa Tissot.

Essa dedicação raramente foi reconhecida. As histórias de bastidores, quase sempre narradas do ponto de vista dos diretores homens, consolidaram a imagem de uma atriz atrasada, indisciplinada e emocionalmente instável. Billy Wilder foi um dos que mais vocalizaram esse discurso, ecoado com especial força na crítica francesa do pós‑guerra.

A pintura Shot Sage Blue Marilyn, de Andy Warhol, realizada em 1964, é exibida no showroom da Christie’s em Nova York, no domingo, 8 de maio de 2022.
Foto: RFI

Contratos abusivos e uma batalha desigual

Em 1953, no auge do sucesso de Os Homens Preferem as Loiras, Marilyn recebeu um salário significativamente menor que o de Jane Russell, sua parceira de cena. Os contratos de exclusividade de sete anos davam aos estúdios o poder de decidir se e quando uma atriz trabalharia. "Eram contratos abusivos", afirma Tissot, "e Marilyn foi muito mal remunerada durante grande parte da carreira".

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A partir de meados da década, ela passa a renegociar. Luta por salários mais altos, pelo direito de escolher papéis e diretores, e cria sua própria produtora. Conquista vitórias parciais, mas nunca alcança a autonomia de estrelas como Mae West. Mesmo em seu último projeto, Something's Got to Give, Marilyn ganhava menos que colegas homens e menos que Elizabeth Taylor.

O preço dessa rebeldia foi alto. Segundo Tissot, a indústria responde com um backlash: a loira ingênua cede lugar à mulher neurótica, problemática, instável. Filmes como A Loira Explosiva ridicularizam justamente sua tentativa de se emancipar.

Entre a transgressão e o castigo

A cena da saia branca levantada pelo metrô, em O Pecado Mora ao Lado, sintetiza esse conflito. Filmada em 1954, diante de milhares de curiosos, ela violava simbolicamente o Código Hays e gerou uma das imagens mais reproduzidas da história do cinema.

Tissot optou por abrir a exposição não com o vestido da cena, mas com fotos da multidão, sublinhando o caráter espetacular e exibicionista da operação. A imagem eclipsou o próprio filme. "O material promocional da estrela passa a se sobrepor à obra", observa a curadora. Marilyn era, ao mesmo tempo, instrumento de transgressão e alvo de punição moral.

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"No fundo, isso mostra toda a complexidade que envolve uma estrela como a Marilyn Monroe. Na França, algo parecido aconteceu com a Brigitte Bardot. É uma década cheia de contradições: ao mesmo tempo em que começa um movimento de emancipação das mulheres, existe um discurso constante que reduz essas figuras à sexualidade. E, no contexto norte-americano, isso se soma a um certo puritanismo. Então fica claro que a imagem da Marilyn Monroe está presa nessa espécie de armadilha", analisa Tissot.

Nos anos finais, em filmes como Quanto Mais Quente Melhor e Os Desajustados, a vulnerabilidade passa ao primeiro plano. Sua morte, em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, encerra a carreira e inaugura outra coisa: a administração incessante de seu mito.

Um mito sem arquivo

A curta carreira e a morte precoce dificultaram o trabalho histórico, segundo a curadora. Os pertences de Marilyn foram leiloados e se dispersaram por coleções privadas. Contratos, cartas e objetos raramente estão acessíveis. "Isso explica por que as lendas continuam tão fortes", diz Tissot. "Há excesso de discurso, mas pouco acesso aos documentos."

A exposição, ao contextualizar imagens, filmes e discursos, não busca absolver nem vitimizar, e, segundo a curadora, pretende recolocar Marilyn Monroe como sujeito histórico, atriz trabalhadora e figura central para entender como Hollywood fabricou suas estrelas - e como as descartou.

A mostra fica em cartaz em Paris até 26 de julho de 2026.

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