Portugal celebra 52 anos da Revolução dos Cravos com alertas sobre democracia e paz

Portugal celebra neste sábado (25) os 52 anos da Revolução dos Cravos, que pôs fim a mais de 40 anos de ditadura, com uma sessão solene realizada hoje na Assembleia da República e uma manifestação nas ruas de Lisboa. Em meio a um contexto mundial conturbado e ao crescimento da extrema direita no país, o presidente António José Seguro lembrou que a liberdade depende da paz.

25 abr 2026 - 10h09

"A liberdade é tão natural como a nossa vida. A liberdade, a igualdade, a justiça social, a democracia são valores que fazem parte da nossa identidade coletiva", disse o presidente socialista português em seu discurso na tradicional sessão solene do Parlamento.

Pessoas cantam "Grandola, Vila Morena", de José Afonso, hino da revolução, durante as comemorações do 52º aniversário da Revolução dos Cravos em Portugal, que resultou na queda da ditadura e na transição para a democracia. Em Lisboa, em 25 de abril de 2026.
Pessoas cantam "Grandola, Vila Morena", de José Afonso, hino da revolução, durante as comemorações do 52º aniversário da Revolução dos Cravos em Portugal, que resultou na queda da ditadura e na transição para a democracia. Em Lisboa, em 25 de abril de 2026.
Foto: REUTERS - Pedro Nunes / RFI

"O 25 de Abril de 1974 é de valor inquestionável" e foi, "de certa forma, em termos coletivos, um nascimento", completou Seguro, em seu primeiro discurso comemorativo da Revolução dos Cravos como presidente. Ele foi empossado como chefe de Estado em 9 de março.

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"Mas a liberdade não vive isolada. Está profundamente ligada à paz. Num tempo em que assistimos com inquietação a guerras que devastam países e destroem vidas, compreendemos melhor esta ligação", acrescentou.

Defesa da democracia

Em um momento de crescimento da extrema direita em Portugal, Seguro se dirigiu aos jovens, afirmando que não pede para que "amem o 25 de abril", mas que tenham a noção de que as conquistas da revolução têm tradução concreta na vida cotidiana.

"O perigo para a democracia raramente chega como nos filmes", e sim num "argumento que parece inofensivo e, nos dias de hoje, também com algoritmos", disse, afirmando que "fora" da democracia "não há mais justiça e nem mais liberdade". "Se queremos uma política melhor, não é afastando-nos da política que a mudamos, é participando".

O presidente português também pediu aos jovens que ajam sempre que virem direitos fundamentais serem violados. "Quando ouvirem a palavra liberdade a ser usada para restringir, defendam-na", declarou Seguro. "Não se calem, falem mais alto", disse, pedindo que os jovens não sejam espectadores da democracia, mas protagonistas.

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"Cuidar da liberdade é exercê-la com coragem", sublinhou, pedindo que "não a tratem como garantida". "Ou defendemos com coragem ou arriscamos a perdê-la com silêncio", concluiu, ao recordar que tinha 12 anos no 25 de Abril e que só é presidente porque esse dia existiu.

"Silêncio às armas"

A Associação 25 de Abril, organização que divulga e preserva a memória da revolução, também fez referência à conjuntura de guerras durante as comemorações deste ano. Em mensagem lida por seu presidente, Vasco Lourenço, durante um jantar comemorativo realizado na sexta-feira (24), em Lisboa, a associação pediu "silêncio às armas" e o fim dos conflitos. "As guerras nunca são solução para os conflitos que quase sempre servem interesses obscuros", afirmou a mensagem, acrescentando que "o mundo está altamente conturbado".

"Hoje comemoramos os 52 anos da libertação e da conquista da paz em Portugal, com o lançamento de um grito que confiamos que possa ser ouvido pelos nossos dirigentes, mas que também possa extravasar as nossas fronteiras e possa ser escutado pelos dirigentes de todo o mundo", diz o texto.

"O mundo está perturbado porque há loucos que estão a tomar conta de alguns países com a demagogia e a mentira a aproveitarem-se da fraca memória dos povos. O direito Internacional é cada vez mais uma falácia onde impera a lei do mais forte. O medo começa a reinstalar-se", lamentou.

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Cravos vermelhos

A Revolução dos Cravos foi um movimento militar e popular ocorrido em 25 de abril de 1974, em Portugal, que pôs fim à ditadura do Estado Novo, vigente desde 1933, derrubando o regime autoritário. O nome vem do gesto simbólico de civis que colocaram cravos vermelhos nos canos das armas dos soldados, representando a natureza pacífica da revolução, que abriu caminho para a democratização do país, a liberdade política e o processo de descolonização das colônias portuguesas na África.

Além da sessão solene que marca o aniversário da data todos os anos, também será realizado o tradicional desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

A atriz portuguesa Maria de Medeiros contou, em entrevista à RFI, como a revolução a marcou. "Recordo muito bem. O 25 de abril de 1974, eu estava em Viena, tinha nove anos, mas lembro-me de ver os meus pais literalmente aos saltos de alegria na sala do nosso apartamento", contou a atriz e diretora que, em 2000, produziu e dirigiu o filme franco-português Capitães de Abril, que retrata a história da Revolução dos Cravos.

"Os meus pais eram novos, eram pessoas divertidas. Mas eu senti que a alegria desse dia era algo muito especial, muito diferente e que ia muito profundo neles e que alguma coisa de muito importante tinha acontecido, que, de fato, revolucionou não só Portugal, mas revolucionou a vida dos portugueses e a nossa também."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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