Europeus temem a insustentabilidade da previdência, com destaque para a crise demográfica na Itália, que enfrenta baixa natalidade, evasão de jovens e envelhecimento populacional, pressionando o sistema e dificultando reformas previdenciárias.
O levantamento, conduzido pelo instituto britânico YouGov em seis países europeus (Itália, França, Espanha, Polônia, Alemanha e Reino Unido) e nos Estados Unidos, mostra que entre 49% e 66% dos participantes acreditam que a previdência não resistirá quando a geração atual de 30 a 40 anos atingir a idade de se aposentar. Em países como Itália, França e Alemanha, essa percepção é ainda mais crítica: para 61% dos italianos, por exemplo, o problema já é realidade.
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O levantamento revela ainda uma grande insatisfação com o sistema em vigor. Em todos os países, ao menos 70% dos aposentados entrevistados afirmam que o valor recebido é um pouco ou muito baixo.
Apesar do descontentamento, o apoio a reformas é limitado. Medidas como aumentar a idade mínima de aposentadoria, elevar impostos sobre os trabalhadores, reduzir o financiamento de serviços para idosos ou até incentivar a imigração aparecem com forte resistência.
Na Itália, segundo a pesquisa, a proposta que recebe maior apoio popular é a de reduzir ou até cancelar por completo o pagamento de aposentadoria pública para pessoas de alta renda. A França precisou voltar atrás em sua reforma impopular aprovada em 2023.
Itália possui a população mais envelhecida da Europa
A Itália possui uma das populações mais envelhecidas do mundo e a mais envelhecida da Europa. A expectativa de vida no país é dois anos maior do que a média da União Europeia e continua aumentando — um fator positivo. Atualmente, os italianos vivem, em média, até os 83 anos. Segundo especialistas, esse resultado reflete uma boa qualidade de vida, com acesso a um sistema de saúde público e a pensões relativamente generosas.
O problema, no entanto, está na base da pirâmide etária. A natalidade cai ano após ano e, em 2024, o número de bebês nascidos foi o menor já registrado no país. Atualmente, a taxa de fecundidade é de 1,18 filho por mulher, abaixo do necessário para manter a população ao menos estável. Para isso, seriam necessários dois filhos. Nem mesmo a imigração tem sido suficiente para compensar esse déficit populacional.
Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat) mostram que apenas 21% das pessoas entre 18 e 49 anos pretendem ter um filho nos próximos três anos. Jovens italianos enfrentam dificuldades estruturais para entrar no mercado de trabalho, além de salários estagnados há décadas. Este cenário impacta diretamente a decisão de ter filhos e tem provocado uma expressiva evasão de jovens.
Perda de população jovem
Um relatório divulgado nesta semana pelo Conselho Nacional da Economia e do Trabalho (CNEL) revelou que, entre 2011 e 2024, 630 mil pessoas entre 18 e 34 anos deixaram a Itália, com destino a países como Bélgica, França e Alemanha. Mesmo considerando o número de imigrantes que chegaram ao país no período, o saldo ainda é negativo, com uma perda de 441 mil pessoas. Diante desse quadro, enfrentar o desequilíbrio da pirâmide etária vai além de estimular nascimentos. Envolve também criar e melhorar as condições de vida da população jovem.
O envelhecimento demográfico, com muitos aposentados e poucos trabalhadores na ativa, impacta diretamente a arrecadação necessária para pagar os benefícios. Atualmente, a idade mínima para se aposentar na Itália é de 67 anos. Segundo dados do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), o país tem cerca de 16 milhões de aposentados e o valor médio das pensões é de € 1.861 por mês (cerca de R$ 12 mil), em valores brutos.
Desafios pressionam governo
Após semanas de intensos debates, o Parlamento italiano aprovou na terça-feira (30) a lei orçamentária para 2026. No tema das aposentadorias, a principal mudança envolve a idade mínima. Pela legislação italiana, em 2027 a idade mínima para aposentadoria deveria subir automaticamente três meses, passando para 67 anos e três meses.
Esse aumento, no entanto, foi suavizado: em 2027, a idade sobe apenas um mês, e os dois meses restantes ficam para 2028. A lei orçamentária também prevê um aumento de € 20 mensais (cerca de R$ 129) para as aposentadorias de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Apesar de reconhecer o problema futuro, o governo enfrenta forte pressão popular para evitar mudanças que tornem as regras ainda mais duras. Já a questão demográfica é tratada como prioridade. A primeira-ministra Giorgia Meloni já afirmou considerar o tema central para o futuro do país.
Entre as medidas para incentivar a natalidade está a concessão de um bônus de € 1.000 (R$ 6.485) por bebê nascido. Também houve redução de impostos sobre produtos infantis, mas a iniciativa foi posteriormente revertida por não apresentar os resultados esperados.