Espanha denuncia atitude 'egoísta' da UE e anuncia que situação em Ceuta está 'quase normal'

A crise na União Europeia (UE) relacionada à chegada de milhares de migrantes marroquinos ao enclave espanhol de Ceuta continua se intensificando neste sábado (1°). Em uma carta dirigida aos líderes do bloco, o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, denunciou a atitude "egoísta" de alguns países. Madri também indicou que a situação está "quase" normal no território.

1 ago 2026 - 09h43
(atualizado às 10h34)

A carta do premiê espanhol foi divulgada logo após a Itália e a França ter anunciado o reforço dos controles em suas fronteiras, após a entrada ilegal, nesta semana, de cerca de 60 mil migrantes do Marrocos em Ceuta. O governo francês anunciou ter multiplicado o número de policiais na região limítrofe com a Espanha. Já a Itália anunciou controles em seus portos e aeroportos para cidadãos não europeus que chegam ao país vindos do território espanhol.

Policiais espanhóis escoltam um grande grupo de migrantes até a fronteira para retirá‑los da Espanha, após travessias em massa de migrantes a pé e pelo mar vindos do Marrocos para o território espanhol, em Ceuta, Espanha, em 1º de agosto de 2026.
Policiais espanhóis escoltam um grande grupo de migrantes até a fronteira para retirá‑los da Espanha, após travessias em massa de migrantes a pé e pelo mar vindos do Marrocos para o território espanhol, em Ceuta, Espanha, em 1º de agosto de 2026.
Foto: REUTERS - Fabian Bimmer / RFI

Na sexta-feira (31), a Itália, apoiada pela Finlândia e pela Dinamarca, já havia anunciado a suspensão temporária das regras do espaço Schengen em relação à Espanha. Mas, para o ministro francês do Interior, Laurent Nuñez, está "fora de questão" a possibilidade de Madri deixar de fazer parte da área de livre circulação dos países da UE.

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Para Pedro Sánchez, a reação de alguns países do bloco é motivada por preconceitos, informações falsas, ignorância ou interesses políticos. Na carta divulgada neste sábado, o premiê espanhol afirma que a atitude de alguns governos "não apenas contraria o direito europeu, o direito humanitário e os princípios de solidariedade que nos unem, mas também vai contra os interesses de longo prazo da Europa".

Milhares de chegadas

Desde o início da semana, centenas de pessoas começaram a chegar a Ceuta, território espanhol situado no norte da África, tanto a nado quanto saltando as cercas da fronteira, em sua maioria homens jovens e adolescentes. A partir da madrugada de quinta-feira (30), a onda de migrantes aumentou drasticamente, chegando a cerca de 60 mil. De acordo com o ministro espanhol do Interior, Fernando Grande-Marlaska, ao menos 67 pessoas morreram realizando a travessia.

Para especialistas, várias explicações são possíveis para explicar as chegadas massivas. Uma delas está ligada a uma decisão proferida em 8 de julho pela Suprema Corte espanhola, segundo a qual a devolução imediata de um migrante, sem abertura prévia de um procedimento administrativo de expulsão, não se aplica às pessoas que chegam por via marítima.

No entanto, as travessias também podem ter sido favorecidas pela recente decisão do governo espanhol de regularizar pessoas que entraram ilegalmente no país, ou pela perspectiva de uma eventual mudança de maioria no poder, em favor de um Executivo mais rígido em relação à imigração.

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Em reação à crise, a direita e a extrema direita europeias se apropriaram imediatamente do debate para questionar os controles nas fronteiras. Uma das primeiras personalidades políticas a reagir foi a ultraconservadora primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que classificou as imagens dos migrantes chegando a Ceuta de "chocantes" e prometeu "não permanecer de braços cruzados".

"A história se repete. Em 2015, Angela Merkel convidou os migrantes em situação irregular a virem para a Alemanha por razões políticas, para derrotar liberais e verdes. (…) O governo espanhol está fazendo hoje exatamente a mesma coisa", declarou por meio de um comunicado o primeiro‑ministro tcheco Andrej Babiš, um bilionário nacionalista aliado a partidos de extrema direita. 

Reunião de emergência da UE

Vinte e dois líderes da União Europeia pediram neste sábado uma "videoconferência de emergência" dos ministros europeus do Interior para avaliar e responder à situação em Ceuta. "Não podemos permitir que travessias massivas e descontroladas, a instrumentalização das migrações ou outras ameaças híbridas deem a impressão de que é possível entrar ilegalmente na União Europeia", afirmam os 22 signatários de uma carta aberta. 

Entre os demais signatários estão o chanceler alemão, Friedrich Merz, e os primeiros‑ministros da Hungria, da Suécia e da Polônia, mas não os líderes da França e de Portugal, cujos países são vizinhos imediatos da Espanha. "Os acontecimentos dos últimos dias exigem uma resposta europeia imediata e coordenada", reitera o texto dirigido à presidência irlandesa da UE, ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

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Já a Espanha instalou barreiras com boias em sua fronteira com o Marrocos e afirmou que a situação agora é "quase" normal em Ceuta. O ministro do Interior da Espanha chegou neste sábado ao território com o objetivo de transmitir uma mensagem de tranquilidade. Segundo ele, "quase todos" os marroquinos que entraram no enclave na última semana já retornaram a seu país de origem.

RFI com AFP

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