Audiovisual público é novo front da batalha política na França a um ano das eleições presidenciais

A Assembleia Nacional francesa votou, na segunda‑feira (27), pela publicação de um relatório controverso sobre o audiovisual público. O documento, resultado de uma comissão de inquérito conduzida pelo deputado Charles Alloncle, aliado da extrema direita, será oficialmente divulgado em 4 de maio. O debate sobre rádios e TVs públicas envolve questões como financiamento e independência editorial e deve pesar na campanha presidencial de 2027.

28 abr 2026 - 11h42

A comissão de inquérito sobre a radiodifusão pública foi instaurada em outubro de 2025 na Assembleia de Deputados, por iniciativa do grupo União de Direitas pela República, após o site L'Incorrect divulgar um vídeo em que jornalistas de uma rádio pública conversavam, em caráter privado, com membros do Partido Socialista. A União de Democratas e Independentes (UDR) apontou o episódio como indício de falta de neutralidade.

O bilionário francês Vincent Bolloré durante o inquérito parlamentar sobre a radiodifusão pública na Assembleia Nacional em Paris, em 24 de março de 2026.
O bilionário francês Vincent Bolloré durante o inquérito parlamentar sobre a radiodifusão pública na Assembleia Nacional em Paris, em 24 de março de 2026.
Foto: REUTERS - Gonzalo Fuentes / RFI

Mais de 200 pessoas, entre jornalistas, executivos de empresas públicas de mídia, produtores e dirigentes de grupos privados, prestaram depoimento à CPI ao longo de seis meses. As audiências, frequentemente tensas e amplamente divulgadas, suscitaram controvérsias sobre metodologia e tom, com denúncias de agressividade e tentativas de constrangimento por parte do relator e de alguns integrantes da comissão.

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Na segunda‑feira, após cerca de cinco horas de debates intensos, a CPI aprovou por margem apertada a publicação de seu relatório final, com aproximadamente 400 páginas.

O documento propõe reformas profundas, como cortes orçamentários de € 1 bilhão, fusões de canais e mudanças na governança, entre elas, o retorno da nomeação de dirigentes pelo Palácio do Eliseu, hoje atribuída a conselhos de administração. O texto provocou críticas da esquerda e de partidos de centro‑direita e centro‑esquerda, que apontam viés partidário. Os trabalhos foram marcados por acusações de manipulação e instrumentalização política pela direita, adquirindo contornos de espetáculo midiático.

Instrumentalização e "batalha cultural"

Parlamentares de esquerda se opuseram à divulgação do relatório, enquanto a direita e a extrema direita defenderam sua publicação. Como observou o Libération, não publicá‑lo permitiria acusações de censura; aprová‑lo, por sua vez, significaria validar a instrumentalização do debate pela direita com o aval da Assembleia.

Segundo o Le Monde, mais do que as propostas em si, o processo revelou um clima de polarização e de "batalha cultural" em torno do audiovisual público. Acusações de interferência externa marcaram os trabalhos, inclusive envolvendo o grupo do empresário Vincent Bolloré, cuja atuação ampliou a concentração do setor e o debate sobre viés ideológico.

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De acordo com o jornal, o departamento de assuntos institucionais do grupo de Arnaud Lagardère - controlado por Bolloré - enviou listas de perguntas a parlamentares antes das audiências, refletindo a mesma hostilidade à radiodifusão pública observada em grande parte das 67 sessões.

Para o Le Monde, a decisão de publicar o relatório, sob o argumento da transparência e da prevenção a narrativas de censura, reforça preocupações sobre a confiança na mídia pública e seu papel democrático às vésperas das eleições presidenciais.

"Cavalo de Troia da Reunião Nacional"

O presidente da CPI, Jérémie Patrier‑Leitus, do partido Horizontes (centro‑direita), votou a favor da publicação. Em entrevista à rádio pública France Inter, afirmou não ter cedido à extrema direita e criticou os métodos do relator, que classificou como insinuantes e infundados.

Ele acusou o relator, Charles Alloncle, de atuar como um "cavalo de Troia [do partido] Reunião Nacional" em favor da privatização da radiodifusão pública. "Não apoio suas propostas", afirmou, lembrando que Marine Le Pen e Jordan Bardella já defenderam a privatização do setor.

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