A comissão de inquérito sobre a radiodifusão pública foi instaurada em outubro de 2025 na Assembleia de Deputados, por iniciativa do grupo União de Direitas pela República, após o site L'Incorrect divulgar um vídeo em que jornalistas de uma rádio pública conversavam, em caráter privado, com membros do Partido Socialista. A União de Democratas e Independentes (UDR) apontou o episódio como indício de falta de neutralidade.
Mais de 200 pessoas, entre jornalistas, executivos de empresas públicas de mídia, produtores e dirigentes de grupos privados, prestaram depoimento à CPI ao longo de seis meses. As audiências, frequentemente tensas e amplamente divulgadas, suscitaram controvérsias sobre metodologia e tom, com denúncias de agressividade e tentativas de constrangimento por parte do relator e de alguns integrantes da comissão.
Na segunda‑feira, após cerca de cinco horas de debates intensos, a CPI aprovou por margem apertada a publicação de seu relatório final, com aproximadamente 400 páginas.
O documento propõe reformas profundas, como cortes orçamentários de € 1 bilhão, fusões de canais e mudanças na governança, entre elas, o retorno da nomeação de dirigentes pelo Palácio do Eliseu, hoje atribuída a conselhos de administração. O texto provocou críticas da esquerda e de partidos de centro‑direita e centro‑esquerda, que apontam viés partidário. Os trabalhos foram marcados por acusações de manipulação e instrumentalização política pela direita, adquirindo contornos de espetáculo midiático.
Instrumentalização e "batalha cultural"
Parlamentares de esquerda se opuseram à divulgação do relatório, enquanto a direita e a extrema direita defenderam sua publicação. Como observou o Libération, não publicá‑lo permitiria acusações de censura; aprová‑lo, por sua vez, significaria validar a instrumentalização do debate pela direita com o aval da Assembleia.
Segundo o Le Monde, mais do que as propostas em si, o processo revelou um clima de polarização e de "batalha cultural" em torno do audiovisual público. Acusações de interferência externa marcaram os trabalhos, inclusive envolvendo o grupo do empresário Vincent Bolloré, cuja atuação ampliou a concentração do setor e o debate sobre viés ideológico.
De acordo com o jornal, o departamento de assuntos institucionais do grupo de Arnaud Lagardère - controlado por Bolloré - enviou listas de perguntas a parlamentares antes das audiências, refletindo a mesma hostilidade à radiodifusão pública observada em grande parte das 67 sessões.
Para o Le Monde, a decisão de publicar o relatório, sob o argumento da transparência e da prevenção a narrativas de censura, reforça preocupações sobre a confiança na mídia pública e seu papel democrático às vésperas das eleições presidenciais.
"Cavalo de Troia da Reunião Nacional"
O presidente da CPI, Jérémie Patrier‑Leitus, do partido Horizontes (centro‑direita), votou a favor da publicação. Em entrevista à rádio pública France Inter, afirmou não ter cedido à extrema direita e criticou os métodos do relator, que classificou como insinuantes e infundados.
Ele acusou o relator, Charles Alloncle, de atuar como um "cavalo de Troia [do partido] Reunião Nacional" em favor da privatização da radiodifusão pública. "Não apoio suas propostas", afirmou, lembrando que Marine Le Pen e Jordan Bardella já defenderam a privatização do setor.