Para Sanam Vakil, diretora do Programa de Oriente Médio e Norte da África do think tank britânico Chatham House, a atual disputa entre Irã e Estados Unidos está aos poucos se alastrando pelo mundo.
Segundo ela, não apenas o restante do Oriente Médio está sendo envolvido, mas aliados americanos, como a Europa, também estão sendo arrastados para o conflito.
"Esta não é uma guerra entre o Irã e os Estados Unidos. Embora essa possa ter sido a intenção, esta é uma guerra que está claramente se espalhando por toda a região", afirmou a especialista em entrevista ao programa Newsnight, da BBC.
"Todos esses países foram envolvidos, mas o Reino Unido e a Europa também serão afetados."
Após os primeiros ataques conduzidos pelos EUA e Israel contra o Irã no sábado (28/2), as forças iranianas lançaram mísseis balísticos e drones contra o território israelense, diversos países do Oriente Médio com ligações com os EUA, uma base militar britânica no Chipre e navios na costa iraniana.
Governos europeus reagiram aos ataques, alertando o Irã de que eles estavam prontos para tomar "medidas defensivas" para destruir sua capacidade de lançar mísseis e drones, caso Teerã não interrompesse seus "ataques indiscriminados".
Mas segundo obsevadores, o continente tem enfrentado dificuldades para adotar uma posição unificada diante dos acontecimentos no Oriente Médio.
A Europa parece preocupada não apenas com seus cidadãos na região, mas com o impacto que a crise pode ter sobre os consumidores em seus países, principalmente nos preços da energia e alimentos. Os líderes europeus também tentam não se indispor com Donald Trump.
Mas segundo Vakil, as nações do continente europeu não são as únicas que foram colocadas em uma posição delicada. O conflito também obrigará os Estados do Golfo a "tomar decisões difíceis", diz.
Para a pesquisadora, o Irã "violou a soberania de muitos de seus vizinhos", entre eles países que mantinham relações com a república islâmica e tentavam negociar uma saída para a crise com os EUA.
"Esses eram países que haviam reconstruído laços com o Irã, que tentavam negociar em nome da República Islâmica e dos Estados Unidos, e agora foram atacados não apenas em bases militares americanas, mas também em infraestrutura civil, aeroportos e hotéis em toda a região do Golfo", afirmou durante o programa Newsnight transmitido na noite de segunda-feira (02/03).
"Portanto, este é um momento muito desafiador para os parceiros e aliados americanos, assim como para os parceiros e aliados europeus e britânicos", disse.
"Eles estão buscando assistência e ajuda, e precisam mostrar aos seus cidadãos que também estão respondendo à situação."
Questionada sobre o futuro do conflito, Sanam Vakil disse que nada está claro no momento.
"A guerra está se espalhando, está se alastrando. Donald Trump já disse de tudo, desde 48 horas, quatro dias até quatro semanas", disse, mencionando as estimativas do presidente americano sobre o fim da operação.
"É preciso haver uma saída. E é aqui que um país como o Reino Unido, mas também outros países, precisam se mobilizar, tentar intervir e pensar em qual será a saída."
Ainda segundo Vakil, a falta de perspectiva a sobre o futuro é extremamente preocupante para a população iraniana.
"Eles não querem sair para protestar enquanto mísseis caem do céu. Teerã está sendo pulverizada e não há nenhum plano para o dia seguinte", disse.
"Podemos ter este regime intacto e reconstituí-lo, ou podemos ter caos, guerra civil, fragmentação. A oposição iraniana está muito dividida."