Mais de dois terços da população de Gaza podem enfrentar fome aguda até o final do ano, à medida que agências humanitárias reduzem o fluxo de ajuda devido à escassez de recursos, informou na quarta-feira um órgão global de monitoramento da fome.
A mais recente avaliação da Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês) constatou que os níveis de desnutrição aguda, especialmente entre crianças, diminuíram significativamente após o aumento do fornecimento de alimentos e dos serviços de nutrição, na sequência do cessar-fogo de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas.
No entanto, o relatório afirma que esses avanços correm o risco de serem revertidos.
O consumo de alimentos continua inadequado para a maioria das famílias, e alguns lares recorrem à mendicância e à coleta de restos de comida, segundo o relatório.
Entre meados de abril e o final de junho, mais de 1,2 milhão de pessoas, ou cerca de 59% da população de Gaza, enfrentaram fome aguda — definida como nível de crise ou pior —, incluindo cerca de 212 mil pessoas em condições de emergência, informou o IPC.
Espera-se que esse número aumente para mais de 1,4 milhão de pessoas, ou 67%, até dezembro.
Após dois anos de guerra e o deslocamento de quase toda a população, a maioria dos habitantes de Gaza depende de suprimentos de ajuda humanitária.
SITUAÇÃO FRÁGIL
O monitor global da fome informou em dezembro que algumas partes de Gaza não estavam mais passando por condições de fome, revertendo sua conclusão de agosto. Agora, ele alerta que esses avanços estão em risco, à medida que a escala da assistência começa a diminuir.
Os programas de alimentação suplementar para mulheres grávidas e lactantes reduziram pela metade o número de pessoas atendidas, para 6.000, entre janeiro e maio deste ano.
Outras reduções na ajuda provavelmente ocorreram devido à falta de recursos e à incerteza quanto ao acesso das organizações humanitárias.
Israel rejeitou as conclusões do IPC de agosto e tem rejeitado consistentemente as alegações de que adotou uma política de fome em Gaza, embora tenha reconhecido que havia escassez de alimentos naquele momento. O país já havia afirmado anteriormente que ajuda suficiente foi permitida no enclave durante a guerra.
O Cogat, órgão militar israelense que supervisiona o fluxo de ajuda humanitária para Gaza, rejeitou o relatório do IPC, considerando-o tendencioso. O órgão afirmou que grandes quantidades de alimentos, água e suprimentos médicos entraram em Gaza desde o cessar-fogo e acusou o Hamas de desviar e saquear os suprimentos de ajuda humanitária.
O governo israelense não respondeu imediatamente a um pedido de comentário da Reuters.
Agências humanitárias também alertaram que Gaza está enfrentando um colapso sem precedentes em seus sistemas de água e saneamento.
A guerra começou quando combatentes liderados pelo Hamas atacaram o sul de Israel, matando 1.200 pessoas, em sua maioria civis, e fazendo 251 reféns, segundo dados israelenses. A ofensiva subsequente de Israel já matou mais de 73.000 palestinos, em sua maioria civis, afirmam autoridades de saúde de Gaza.