Por Arnaud Pontus, da RFI em Paris
Grossi alertou que, no que se refere ao programa nuclear iraniano, o problema que preocupava antes da guerra permanece inalterado. "O estoque de urânio enriquecido a 60%, mais de 440 quilos — suficiente para fabricar uma dúzia de armas nucleares — continua intacto", salientou o diretor-geral da AIEA.
O material nuclear continua estocado nos mesmos locais, principalmente nos túneis do complexo de Isfahan e, em menor medida, em Natanz. Embora não seja possível afirmar que essas áreas sejam totalmente seguras, Grossi ressalta que um eventual ataque direto contra esse estoque, não provocaria um desastre nuclear clássico. A consequência seria "muito limitada, talvez de intoxicação química", acredita
O que mais preocupa o diretor-geral da agência é o impacto político e estratégico da guerra contra o Irã. Grossi insiste que o risco de desenvolvimento de armas nucleares pelo regime iraniano "não desapareceu" e que, por isso, a única saída é retomar o diálogo.
"Teremos que voltar à mesa de negociações e encontrar uma solução duradoura para essa história que já dura mais de 20 anos", afirmou.
Ele também reagiu a rumores sobre uma possível operação de forças especiais americanas e israelenses para controlar ou confiscar o estoque iraniano. Grossi classificou a ideia como "difícil", reforçando que a solução não será militar, mas diplomática.
Danos às instalações
Em relação aos danos às instalações, Grossi explicou que, ao contrário dos ataques de 2025, os bombardeios atuais não têm como alvo principal os sítios nucleares. Desde o início da ofensiva israelo-americana, houve dois ataques em Isfahan e um em Natanz.
Os bombardeios não alterraram substancialmente a situação, já que esses locais vinham sofrendo danos acumulados há meses. Ele também confirmou que não há vazamentos ou sinais de radiação.
Embora inspetores da AIEA não estejam autorizados a visitar as instalações sensíveis desde junho de 2025, Grossi afirmou que manteve algumas inspeções em locais não-alvo e participou pessoalmente de negociações em Genebra.
No entanto, essas conversas fracassaram. Mesmo assim, o contato com autoridades iranianas não foi interrompido, ainda que o contexto de guerra impeça qualquer retomada imediata das negociações.
Temores de radicalização
Grossi teme que os ataques radicalizem alguns setores dentro do Irã que passariam a defender abertamente a fabricação de armas nucleares. "Não podemos descartar essa possibilidade", disse ele, classificando essa hipótese como especialmente alarmante e algo que deve ser evitado a todo custo.
Por isso, insiste na necessidade de retomar o diálogo: "Precisamos evitar esses cenários. E espero que possamos retomar as negociações em breve". Ele alertou ainda sobre os efeitos, para além da destruição física, que essa guerra já produziu, como os impactos na economia global e nos preços dos combustíveis fósseis que considera extremamente graves.
Quando questionado sobre a declaração de Donald Trump de que a guerra poderia terminar em breve, Grossi manteve uma postura pragmática. Para ele, independentemente do desfecho militar, o Irã continuará sendo "uma grande nação, com grande população e um país industrializado".
O diretor-geral da AIEA concluiu afirmando que um cessar-fogo é condição indispensável para a retomada do diálogo: "Não consigo imaginar uma negociação começando sob o som das bombas".