A cúpula de Paris expôs o desafio da Europa para manter relevância frente a EUA e China na crescente economia espacial. Para alcançar maior autonomia estratégica e militar, o continente busca viabilizar voos tripulados e aposta na constelação de satélites Iris para 2030. No entanto, os europeus enfrentam atrasos críticos no desenvolvimento de foguetes reutilizáveis, forte dependência de tecnologia norte-americana e divergências políticas internas, sobretudo entre França e Alemanha.
Representantes da indústria espacial esperam fechar diversos contratos sob a cúpula de vidro do Grand Palais, que recebe o encontro de dois dias, promovido pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Cerca de 120 países foram convidados, com exceção de Rússia, Irã e Coreia do Norte.
Por trás da disputa pelo acesso ao espaço está um mercado em forte expansão. Segundo estudo da consultoria PwC divulgado na terça-feira (8), a economia espacial mundial, que ultrapassou US$ 500 bilhões em 2025, deverá chegar a US$ 1,1 trilhão até 2035, impulsionada pelas comunicações via satélite, navegação, observação da Terra, serviços de lançamento e atividades relacionadas à Lua.
Especialistas garantem que a Europa conseguirá manter seu espaço nesse mercado. "Temos a sorte de contar com muito capital humano, engenheiros aeroespaciais e profissionais em todas as áreas do setor", afirmou à AFP Mathieu Luinaud, especialista da PwC.
A consultoria Deloitte, por sua vez, alerta para o risco de a Europa ficar para trás e defende encomendas públicas garantidas e uma melhor coordenação dos investimentos, para evitar que cada país desenvolva seus próprios projetos.
Europa pressionada entre EUA e China
"O objetivo da cúpula é consolidar e afirmar o lugar da Europa, espremida entre Estados Unidos e China, que hoje são os dois grandes polos", afirmou Luinaud.
O astronauta francês Thomas Pesquet, embaixador da cúpula, lamentou o impacto dos "sobressaltos da geopolítica" sobre um setor "no qual somos obrigados a trabalhar todos juntos".
A questão do compartilhamento de frequências, que deveria estar no centro das discussões, não poderá ser plenamente debatida devido à ausência de SpaceX, de Elon Musk, e Blue Origin, fundada por Jeff Bezos. As duas gigantes americanas desistiram de participar do encontro em meio a rumores de pressão da Casa Branca.
O afastamento dos Estados Unidos de alguns programas conjuntos com a Europa também levou os europeus a questionar sua dependência de Washington e seu próprio papel na exploração lunar.
A possibilidade de a Europa desenvolver capacidade para voos tripulados voltou ao centro do debate. O diretor da Agência Espacial Europeia (ESA), Josef Aschbacher, defende uma nova ambição e afirma que o continente poderia desenvolver voos tripulados a um "custo razoável".
A ArianeGroup, responsável pelo desenvolvimento do foguete Ariane 6, afirmou que o lançador pesado europeu poderia ser adaptado para voos tripulados.
Atraso nos foguetes reutilizáveis
A Europa também enfrenta um atraso na área de foguetes reutilizáveis. O presidente americano, Donald Trump, estabeleceu a meta de mil lançamentos por ano até 2030, enquanto a Europa, que atualmente realiza dezenas de lançamentos, corre o risco de enfrentar uma escassez de lançadores até o mesmo período, segundo o diretor da ESA.
Em agosto, a empresa chinesa LandSpace conseguiu recuperar o primeiro estágio do foguete pesado Zhuque-3, comparável ao Falcon 9, da SpaceX. A Europa ainda não testou um foguete reutilizável.
A MaiaSpace, subsidiária da ArianeGroup que desenvolve um foguete reutilizável, prevê seu primeiro voo de teste apenas para o segundo semestre de 2027, embora já tenha garantido cinco contratos para 12 lançamentos.
Na Alemanha, sua concorrente Isar Aerospace colocou recentemente um foguete em órbita a partir da Noruega, em um feito inédito para um lançador desenvolvido pelo setor privado na Europa continental.
Divergências entre França e Alemanha
Politicamente, a cúpula ocorre em meio a divergências entre França e Alemanha, agravadas pela ausência do chanceler Friedrich Merz, que permaneceu em Berlim devido à crise aberta com a recente vitória da extrema direita nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt.
A França defende uma preferência por soluções europeias, enquanto a Alemanha permanece mais aberta aos lançadores americanos da SpaceX. Para o ministro francês responsável pelo Espaço, Philippe Baptiste, a presença de lançadores privados europeus pode contribuir para fortalecer a autonomia espacial do continente.
Constelações de satélites: um imperativo estratégico
As constelações de satélites tornaram-se um componente essencial das operações militares modernas. A multiplicação de sensores, a integração dos sistemas de combate e a crescente robotização do campo de batalha ampliaram a dependência das forças armadas por redes de comunicação seguras e permanentes. Nesse contexto, o espaço passou a ser uma dimensão indispensável dos conflitos contemporâneos.
Na guerra da Ucrânia, a rede americana Starlink consolidou-se como uma referência para as comunicações entre centros de comando e controle. Já em 2025, quando forças russas tiveram seu acesso ao sistema limitado em determinadas operações, enfrentaram dificuldades significativas para manter comunicações e coordenar ações no terreno.
Na França, as Forças Armadas também utilizam a Starlink para acesso à internet de alta velocidade, mas apenas em exercícios e treinamentos. Em operações reais, recorrem à rede segura da Eutelsat OneWeb. A busca por autonomia nesse setor tornou-se prioridade para as principais potências militares. A Rússia anunciou recentemente a criação da constelação Rassvet, enquanto a China planeja lançar cerca de 13 mil satélites para atender às necessidades de seu Exército de Libertação Popular.
A Europa, por sua vez, aposta na constelação Iris, cuja entrada em operação está prevista para 2030. O sistema contará com 264 satélites em órbita baixa e outros 18 em órbita média da Terra. Embora esteja longe das chamadas megaconstelações, o projeto deverá garantir aos europeus maior autonomia estratégica e soberania em uma área considerada cada vez mais crucial para a defesa e as comunicações.
RFI e AFP