A guerra aérea dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã se alastrou nesta segunda-feira, e sem um fim à vista, com os israelenses atacando o Líbano em resposta aos ataques do Hezbollah, e Teerã mantendo seus ataques com mísseis e drones contra países do Golfo.
O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que a operação pode continuar por mais algumas semanas e que não está claro quem está no comando no Irã após o assassinato do líder supremo Ali Khamenei no fim de semana.
O ataque ao Irã arrastou o Golfo à guerra, levou o caos ao transporte aéreo global e interrompeu o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde um quinto do comércio mundial de petróleo passa para contornar a costa iraniana, fazendo com que os preços do petróleo disparassem.
Em um exemplo que destacou os riscos envolvidos, o Kuwait abateu por engano três caças F-15E norte-americanos durante um ataque iraniano, informou o Comando Central dos EUA. Todos os seis tripulantes ejetaram-se e foram resgatados em segurança. Um vídeo filmado em local verificado pela Reuters mostrou um dos aviões numa queda em espiral no céu, com um motor em chamas.
Para Trump, que enfrenta crescente descontentamento no país em relação a questões econômicas básicas, os ataques do fim de semana contra um inimigo que atormentou os EUA e seus aliados por gerações representam a maior aposta da política externa norte-americana em décadas.
Quatro militares dos EUA teriam morrido e Trump exortou os norte-americanos a lamentarem sua perda. Mas a campanha pode representar um grande risco político para o Partido Republicano nas eleições de meio de mandato deste ano, com apenas um em cada quatro norte-americanos apoiando a operação, de acordo com uma pesquisa da Reuters/Ipsos realizada no fim de semana.
Os preços médios da gasolina no varejo nos Estados Unidos subiram acima de US$3 por galão, em parte devido ao conflito — um sinal preocupante para um presidente que já enfrenta crescente descontentamento com questões do dia a dia.
OPERAÇÃO ADIANTADA
Em seus comentários públicos mais extensos até o momento, Trump disse que ordenou o ataque para impedir o programa nuclear de Teerã e um programa de mísseis balísticos que, segundo ele, estaria crescendo rapidamente. Ele não deu sinais, no entanto, de que a operação possa ser encerrada em breve.
"Já estamos substancialmente à frente de nossas projeções de cronograma. Mas seja qual for o tempo, tudo bem", disse o presidente norte-americano em uma cerimônia da Medalha de Honra na Casa Branca.
"Desde o início, projetamos quatro a cinco semanas, mas temos capacidade para ir muito além disso."
Na primeira coletiva formal do Pentágono desde o início da campanha, o presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, general Dan Caine, descreveu uma campanha que incluiu mais de 1.000 alvos atingidos nas primeiras 24 horas. Segundo ele, mais forças estão a caminho da região.
"Esta não é uma operação única que se conclui da noite para o dia. Os objetivos militares que foram atribuídos ao CENTCOM e à Força Conjunta levarão algum tempo para serem alcançados e, em alguns casos, serão trabalhos difíceis e árduos", disse Caine.
O Exército dos Estados Unidos informou que atacou mais de 1.250 alvos no Irã e destruiu 11 navios iranianos.
Diplomatas ocidentais dizem não ter qualquer indicação dos planos de longo prazo do governo para o Irã.
A Turquia se juntou à Rússia e à China na condenação à operação, considerada uma "clara violação" do direito internacional pelo presidente turco, Tayyip Erdogan.
O Irã nega estar em busca de uma arma nuclear e afirma que fazia ofertas de restringir seu programa nuclear nas negociações quando os Estados Unidos lançaram um ataque não provocado.
Trump repetiu seu apelo aos iranianos para que se levantem e derrubem seus líderes, mas disse que não está claro quem está no comando no Irã após a morte de Khamenei.
"Não sabemos quem é a liderança. Não sabemos quem eles vão escolher", disse ele à CNN em uma entrevista.
Em uma publicação no X nesta segunda-feira, Ali Larijani, um poderoso assessor de Khamenei, disse que o Irã não negociaria com Trump, a quem atribuiu "ambições delirantes".
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, disse à TV estatal que o assassinato foi um "crime religioso" que terá graves consequências.
Dentro do Irã, onde os moradores congestionaram as rodovias para fugir dos bombardeios, pairava a incerteza sobre o futuro e emoções que variavam entre euforia, apreensão e raiva.
Muitos comemoraram abertamente a morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, que governava o país desde 1989 e comandava as forças de segurança responsáveis pela morte de milhares de manifestantes antigoverno no início deste ano.
Mas líderes clericais conservadores não mostraram sinais de ceder o poder no Irã. Especialistas militares dizem que o poder aéreo dos EUA e de Israel, sem forças armadas em terra, pode não ser suficiente para expulsá-los. Enquanto isso, dezenas de iranianos foram mortos em ataques, que também atingiram alvos aparentemente civis.
"Eles estão matando crianças, estão atacando hospitais. É esse o tipo de democracia que Trump quer nos trazer?", disse Morteza Sedighi, professor de 52 anos, por telefone, de Tabriz, no noroeste do Irã.
"Pessoas inocentes foram mortas primeiro pelo regime e agora por Israel e pelos Estados Unidos."
GUERRA SE ALASTRA
Em um sinal de que os governantes do Irã ainda buscam contato com o mundo exterior, uma autoridade de alto escalão de segurança iraniano entrou em contato com a Reuters para dizer que o país está se defendendo contra agressores e vai continuar a fazê-lo.
Uma nova frente na guerra se abriu nesta segunda-feira, quando a milícia libanesa Hezbollah, um dos principais aliados de Teerã no Oriente Médio, lançou mísseis e drones contra Israel.
Israel respondeu com ataques aéreos generalizados, que, segundo o país, tiveram como alvo os subúrbios do sul de Beirute controlados pelo Hezbollah e atingiram militantes de alto escalão. A agência de notícias estatal libanesa NNA disse que pelo menos 31 pessoas foram mortas e 149 ficaram feridas.
Um míssil iraniano Shahed, que segundo autoridades cipriotas teria sido disparado pelo Hezbollah a partir do Líbano, também atingiu a base aérea britânica em Akrotiri, no Chipre, o primeiro ataque a atingir aliados dos EUA na Europa.
Israel declarou o líder do Hezbollah, Naim Qassem, como "alvo a ser eliminado". Autoridades afirmaram que, por enquanto, não consideram uma invasão terrestre ao Líbano, cujo governo proibiu nesta segunda-feira as atividades militares do Hezbollah.
Enquanto aliados dos norte-americanos no Golfo eram alvo de novos ataques com mísseis e drones iranianos, uma fumaça preta subia acima da área ao redor da embaixada dos EUA no Kuwait. Houve fortes explosões em Dubai e Samha, nos Emirados Árabes Unidos, e na capital do Catar, Doha.
Um dos maiores exportadores mundiais de gás natural liquefeito, o Catar interrompeu a produção, sem perspectivas de envio do produto com segurança através do estreito de Ormuz.
A Arábia Saudita fechou sua maior refinaria depois que ataques com drones causaram um incêndio no local, uma das várias instalações de energia que se tornaram alvos.