Austrália: greve do setor audiovisual público expõe temor diante da IA e de salários defasados

A Austrália viveu nesta quarta-feira (25) uma das mais significativas paralisações do setor de mídia e audiovisual em duas décadas. Mais de 2.000 funcionários da ABC (Australian Broadcasting Corporation) — entre jornalistas, produtores, cinegrafistas, técnicos de transmissão e equipes de bastidores — cruzaram os braços por 24 horas, marcando a primeira greve em 20 anos na maior emissora pública do país.

25 mar 2026 - 16h54

Os funcionários exigem medidas de segurança em relação ao uso de inteligência artificial (IA), que, segundo afirmam, ameaça seus empregos.

Jornalistas e funcionários em greve se reúnem em frente à sede da Australian Broadcasting Corporation (ABC). Eles exigem melhores salários e proteções para impedir que a inteligência artificial tome seus empregos. Em Melbourne, em 25 de março de 2026.
Jornalistas e funcionários em greve se reúnem em frente à sede da Australian Broadcasting Corporation (ABC). Eles exigem melhores salários e proteções para impedir que a inteligência artificial tome seus empregos. Em Melbourne, em 25 de março de 2026.
Foto: AFP - WILLIAM WEST / RFI

Por causa do movimento grevista, o grupo ABC — que opera rádio, televisão e um site de notícias — teve de substituir a programação ao vivo por conteúdos gravados. A paralisação começou às 11h (horário local), após semanas de negociações fracassadas.

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A ação foi convocada após a rejeição, pela maioria dos trabalhadores, da última oferta salarial apresentada pela direção da empresa em março, considerada insuficiente diante da inflação. A queda na receita publicitária e a ascensão das mídias sociais contribuíram para uma onda de demissões no setor de mídia australiano.

"Os funcionários da ABC querem salários justos, segurança no emprego e salvaguardas em relação ao uso de tecnologias como a IA, para proteger a integridade editorial e a confiança pública", declarou o sindicato da categoria.

O sindicato MEAA (Media, Entertainment & Arts Alliance), que representa grande parte dos trabalhadores da ABC e também profissionais do audiovisual em todo o país, aponta três eixos centrais para a paralisação: salários que acompanhem o custo de vida; fim da insegurança contratual; e proteções contra o uso indiscriminado de inteligência artificial.

Repercussão nacional

O movimento ganhou repercussão em todo o país. Na porta das redações, cartazes pediam "trabalho justo", "proteção contra IA" e "segurança para o futuro do jornalismo público". Em algumas regiões, voluntários ajudaram a manter no ar apenas serviços essenciais, como transmissões de emergência.

A greve ocorre em um momento sensível para o setor audiovisual australiano. Relatórios da Screen Australia, a agência nacional de fomento ao audiovisual, mostram queda expressiva nos investimentos na produção local, com recuo de 29% nos gastos da indústria entre 2023 e 2024 — sinal de que a crise não se limita ao jornalismo, mas afeta todo o ecossistema de cinema, TV e streaming.

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Para muitos trabalhadores, o dia de hoje simboliza não apenas uma reivindicação econômica, mas a defesa do papel da mídia pública e da produção audiovisual como bens culturais essenciais à democracia australiana.

Com agências

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