Ataques entre Estados Unidos e Irã voltaram a elevar a tensão no Golfo nesta quarta-feira, 3, após a morte de ao menos uma pessoa no Kuwait em ofensivas atribuídas a Teerã. A escalada incluiu mísseis contra países da região e bombardeios norte-americanos a alvos iranianos, em meio à violação de um cessar-fogo firmado em abril, ampliando o risco de conflito e pressionando rotas estratégicas de petróleo e negociações ainda abertas entre Washington e o governo iraniano.
Uma pessoa morreu e várias ficaram feridas no Kuwait em ataques realizados ao amanhecer pelo Irã, informou o Ministério das Relações Exteriores do país.
A ação atingiu "instalações civis e vitais, incluindo o aeroporto internacional do Kuwait, causando uma morte, feridos e danos a estruturas essenciais, entre elas missões diplomáticas", afirmou o ministério em comunicado, no qual condenou as "agressões iranianas".
"A segurança do Estado do Kuwait, sua soberania e a proteção de seus cidadãos e residentes são inegociáveis", acrescentou.
Confrontos durante a madrugada
Os confrontos se intensificaram durante a madrugada, em meio a acusações mútuas de violação do cessar-fogo firmado em abril. Apesar do agravamento do cenário militar, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que os canais de diálogo com Teerã permanecem abertos, indicando que, ao menos formalmente, a via diplomática não foi interrompida.
O Kuwait anunciou a suspensão do tráfego em seu aeroporto após o ataque com drones atribuído ao Irã, que deixou feridos e provocou danos materiais. O país, que abriga bases militares dos Estados Unidos, já vinha sendo atingido por ações semelhantes desde o início da ofensiva regional no fim de fevereiro, o que aumentou o nível de alerta das autoridades locais.
O governo kuwaitiano classificou o episódio como uma "agressão criminosa" e informou ter reforçado medidas de segurança em pontos considerados estratégicos. O impacto imediato incluiu interrupções logísticas e restrições operacionais, em um momento de alta sensibilidade para a circulação na região do Golfo.
No Bahrein, onde está sediada a Quinta Frota da Marinha norte-americana, mísseis lançados pelo Irã foram interceptados, segundo o comando militar dos Estados Unidos para o Oriente Médio. De acordo com Washington, todos os projéteis disparados nas últimas horas foram neutralizados ou falharam antes de atingir seus alvos.
Outro episódio envolveu uma embarcação civil em alto-mar, também citado por militares norte-americanos. As forças dos EUA, no entanto, não detalharam a localização do incidente nem a extensão de possíveis danos, mantendo a informação em caráter preliminar.
Os novos incidentes na região, após confrontos registrados no mês passado nas proximidades do Estreito de Ormuz, ampliam as dúvidas sobre a trégua anunciada há oito semanas por Estados Unidos e Irã, mediada pelo Paquistão.
Retaliação e acusações ampliam crise regional
Em resposta aos ataques, os Estados Unidos realizaram o que classificaram como "ações defensivas" contra a ilha iraniana de Qeshm, localizada próxima ao Estreito de Ormuz — uma das principais rotas globais para o transporte de petróleo e gás.
O Irã afirma que suas ações foram motivadas por dois episódios distintos. O primeiro seria um ataque norte-americano contra um petroleiro iraniano nas proximidades do estreito. Segundo Teerã, a resposta incluiu um ataque a uma embarcação identificada como ligada a interesses dos Estados Unidos e de Israel.
O segundo episódio citado pelas autoridades iranianas envolve a destruição de uma torre de telecomunicações na ilha de Qeshm. Após esse ataque, forças iranianas teriam atingido alvos na região do Golfo e instalações associadas à presença militar norte-americana, de acordo com os Guardas da Revolução.
Também nesta quarta-feira (3), o governo iraniano acusou o Kuwait e o Bahrein de permitirem o uso de seus territórios e infraestruturas para operações militares dos Estados Unidos. Em comunicado oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que há "responsabilidade direta e evidente" das autoridades desses países.
"Colonial"
A nota ainda condena o que descreve como uso "colonial" do espaço regional por Washington e amplia o tom das críticas dirigidas a aliados norte-americanos no Golfo, aprofundando o desgaste diplomático.
As monarquias da região, por sua vez, enfrentam dificuldades para construir uma resposta coordenada diante da escalada. Os Emirados Árabes Unidos defenderam uma posição mais unificada entre os países do Golfo, mas sem apresentar medidas práticas até o momento.
No campo diplomático, o cenário permanece indefinido. Veículos da imprensa iraniana noticiaram, no início da semana, que Teerã teria suspendido negociações indiretas com os Estados Unidos em reação à ofensiva israelense no Líbano.
Negociações emperram em meio a novos focos de tensão
O governo norte-americano contesta essa versão e sustenta que os contatos continuam, defendendo que as discussões sobre o programa nuclear iraniano devem ser tratadas separadamente do conflito regional. Já o Irã insiste em vincular qualquer avanço a um cessar-fogo no território libanês.
O impasse também envolve divergências sobre as condições para retomar negociações formais. Segundo relatos da imprensa norte-americana, o governo Trump endureceu suas exigências, reforçando a pressão para que o Irã volte à mesa de negociações sobre seu programa nuclear.
Teerã, por sua vez, rejeita discutir esse tema no atual contexto e condiciona qualquer avanço à redução das tensões militares na região. Em paralelo, lideranças iranianas ameaçam abrir "novos frontes" caso os ataques israelenses continuem.
A guerra no Líbano, iniciada em 2 de março, amplia a instabilidade regional. Israel afirma ter como objetivo enfraquecer o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã e considerado peça central na dinâmica do conflito.
Conflito avança no Líbano e amplia pressão internacional
Nesta quarta-feira (3), uma nova ofensiva atingiu um veículo nas proximidades de Beirute. No dia anterior, bombardeios deixaram cinco mortos, incluindo uma criança, segundo fontes locais.
Um hospital público também foi atingido, o que resultou em dezenas de feridos, entre eles profissionais de saúde, agravando a situação dos serviços públicos nas áreas afetadas pelos combates.
Na cidade costeira de Tiro, o Exército libanês deslocou tropas para conter o pânico da população após alertas do Exército israelense sobre possíveis ataques. Bombardeios na região deixaram ao menos seis mortos, de acordo com uma fonte médica.
Autoridades norte-americanas avaliam que um acordo entre Israel e Líbano poderia ser alcançado rapidamente se não fosse a atuação do Hezbollah. A afirmação foi feita pelo secretário de Estado Marco Rubio durante reunião diplomática em Washington.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que continuará atacando posições em Beirute caso o grupo armado mantenha suas ações. Já o premiê libanês, Nawaf Salam, declarou que a negociação segue sendo "a opção menos custosa" para o país.
O conflito já deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano, e tem efeitos diretos sobre a economia global, sobretudo pelo risco de interrupções no Estreito de Ormuz, corredor essencial para o fluxo de energia no mundo.
Com AFP