Jean-Baptiste Breen, da RFI em Paris
Depois de Kristi Noem, Pam Bondi é a segunda figura proeminente do círculo íntimo do presidente a cair. A procuradora-geral, equivalente à ministra da Justiça, foi definitivamente demitida em 2 de abril. Criticada por sua atuação no caso Jeffrey Epstein e incapaz de processar os opositores políticos indicados por Donald Trump, ela se soma a uma longa lista de pessoas demitidas pelo presidente americano.
Antes de Trump, seus antecessores também realizaram demissões estratégicas, mas o bilionário levou essa prática ao extremo, instaurando um sistema de clientelismo que visa substituir os funcionários que deixam o cargo por apoiadores alinhados à sua ideologia, observa Gabriel Solans, pesquisador em civilização americana na Universidade Paris Cité.
Desejo de vingança
Eleito pela primeira vez graças à imagem de empresário dinâmico, Donald Trump não causou estranheza ao promover demissões políticas. Neste segundo mandato, entretanto, ele "está muito mais bem preparado", salienta Gabriel Solans. "Há um desejo de vingar a derrota de 2020, de se vingar totalmente dos democratas e daqueles dentro do governo que possam não atender às suas exigências."
As represálias começaram muito cedo. Já em janeiro de 2025, Donald Trump mal havia assumido o cargo quando demitiu mais de 10 advogados do Departamento de Justiça (DOJ), por terem trabalhado com o ex-promotor Jack Smith em dois casos criminais contra ele: um relacionado a suspeitas de uso indevido de documentos confidenciais e o outro referente à sua suposta tentativa de reverter a derrota nas eleições de 2020.
Rapidamente, os funcionários do Departamento de Justiça compreenderam que era melhor evitar controvérsias se quisessem se manter no cargo após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
As demissões de advogados continuaram nos meses seguintes, sem que nenhuma razão clara fosse dada, e se estenderam ao FBI, onde dezenas de agentes foram demitidos entre 2025 e 2026. Em fevereiro de 2026, a agência, chefiada por um leal apoiador de Trump, Kash Patel, anunciou a saída de 12 agentes. Todos haviam investigado o caso dos documentos confidenciais, segundo a BBC.
As demissões foram possíveis graças à nomeação, para chefiar essas instituições, de "pessoas subservientes à sua vontade, à sua agenda de vingança contra os democratas, que poderiam levar adiante uma vingança politizando o Departamento de Justiça e o FBI", afirma Gabriel Solans.
Apesar de toda a sua lealdade, Pam Bondi não foi poupada. Atacada por sua gestão dos arquivos Epstein - muitos dos quais foram publicados com erros de redação que revelaram os nomes de diversas vítimas -, a chefe do Departamento de Justiça também acabou despedida. O presidente também não escondeu a irritação com a falta de processos movidos pelo Departamento de Justiça contra aqueles que ele considerava oponentes políticos, revela a CBS.
MAGA dos pés à cabeça
A chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS), Kristi Noem, perdeu seu cargo um mês antes, em 5 de março. A ex-governadora da Dakota do Sul já vinha sendo alvo de críticas internas há algum tempo, segundo o Politico, principalmente em relação à gestão controversa dos fundos do DHS.
Suas declarações sobre Renée Good e Alex Pretti, assassinados por agentes do ICE em Minneapolis, a quem ela chamou de "terroristas", afetaram profundamente a opinião pública. Uma audiência no Congresso, em 4 de março, sobre sua gestão do Departamento de Segurança Interna selou seu destino político.
Com a saída dela, Donald Trump está pagando o preço por seu desejo de consolidar sua autoridade em todos os níveis do governo, sem levar em consideração as qualificações das pessoas que escolhe. Isso ficou evidente no recente ataque de hackers a uma das contas de e-mail de Kash Patel.
As demissões de funcionários considerados não alinhados ao movimento MAGA atingem também as Forças Armadas. Nenhuma razão oficial foi dada para a saída, na sexta-feira (3), do chefe do Estado-Maior do Exército, Randy George, pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth. A decisão teria sido motivada pelo desejo de colocar alguém nessa posição "capaz de implementar a visão do presidente Trump" e a do secretário da Defesa, segundo a CBS.
O caso de Randy George se destaca porque "a maioria das demissões de oficiais de alta patente ou das recusas de promoção que ocorreram envolveram mulheres ou afroamericanos", observa Tama Varma, pesquisadora da Brookings Institution em Washington, em entrevista à RFI.
As demissões em massa afetaram frequentemente oficiais militares mulheres de alta patente, como a vice-almirante Shoshana Chatfield, a almirante Lisa Franchetti e a comandante da Guarda Costeira Linda L. Fagan, dispensada menos de 24 horas após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em fevereiro de 2025, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Charles Q. Brown, um defensor da diversidade nas Forças Armadas, considerado "progressista demais" por Pete Hegseth, também foi removido do cargo.
Fundação Heritage
Gabriel Solans vê essas demissões como "uma mistura de extrema suspeita em relação a qualquer pessoa que possa não estar implementando a agenda de Donald Trump, que possa representar uma ameaça, e ideologia". A caça ao "wokismo" foi teorizada pela Heritage Foundation, um think tank conservador radical que vem influenciando Donald Trump desde sua derrota em 2020.
Antes da eleição presidencial de 2024, o grupo elaborou um documento de mais de 900 páginas, o "Projeto 2025", que serviria como um guia para o líder do MAGA, uma vez eleito. Seus leitores descobriram que "inúmeras ferramentas executivas podem ser usadas por um presidente conservador corajoso para [...] neutralizar e desmantelar os guerreiros culturais woke que se infiltraram em todas as instituições americanas".
Os autores também propõem explicar "como demitir funcionários federais considerados 'irremovíveis'; como fechar escritórios e departamentos corruptos e ineficientes" e "como silenciar a propaganda woke em todos os níveis de governo".
Todas essas propostas foram implementadas, pelo menos em parte, pela equipe presidencial desde que assumiu o cargo. Mesmo antes do retorno de Donald Trump a Washington, sua equipe já planejava ampliar o número de cargos dos quais um funcionário público poderia ser demitido da noite para o dia, explica Gabriel Solans. "Já existiam listas, compiladas por think tanks, de pessoas consideradas pouco propensas a seguir a agenda de Trump", acrescenta o pesquisador.