Uruguai e Argentina se tornam os primeiros países a aprovarem o acordo comercial Mercosul-União Europeia

Nesta quinta-feira (26), apenas três horas antes da Argentina, o Uruguai se tornou o primeiro país do Mercosul a ratificar o acordo comercial com a União Europeia. O presidente argentino, Javier Milei, chegou a antecipar em um dia o debate no Senado, com o objetivo de assumir a liderança regional e garantir vantagens nas negociações sobre cotas de carnes, grãos, laticínios e frutas.

26 fev 2026 - 16h09
(atualizado às 16h48)

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Na disputa para ver qual país do Mercosul seria o primeiro a aprovar o acordo comercial com a União Europeia, o Uruguai cruzou a linha de chegada poucas horas antes da Argentina.

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A Câmara de Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados) concluiu a aprovação iniciada pelo Senado uruguaio no dia anterior. Dos 93 deputados, 91 votaram a favor do acordo, superando a Argentina que pretendia ser o primeiro país para ter vantagens sobre os seus sócios do bloco.

Três horas depois, o Senado argentino também aprovou o texto com 69 votos a favor e três contra, seguindo a Câmara de Deputados, que já havia dado o primeiro passo em 12 de fevereiro.

O Brasil aprovou o acordo na Câmara nesta semana, mas ainda aguarda a análise no Senado, sem data definida. O Paraguai prevê ratificar o tratado na próxima semana.

O Mercosul e a União Europeia assinaram o acordo histórico em 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, após 25 anos de negociações.

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A aprovação uruguaia aconteceu pouco antes do meio-dia, enquanto os senadores argentinos ainda debatiam o texto — apesar de já haver a garantia de ampla maioria favorável.

Avanço rápido

O avanço uruguaio foi veloz. Na segunda-feira, os ministros das Relações Exteriores, Mario Lubetkin, e da Economia, Gabriel Oddone, foram ao Parlamento. Na quarta-feira, o Senado aprovou o texto por unanimidade e, no dia seguinte, foi a vez da Câmara de Deputados ratificá-lo.

Milei, pressionou os deputados governistas para ganharem a disputa com o Uruguai. Os senadores chegaram a pedir a votação minutos depois da aprovação do outro lado do Rio da Prata, mas a oposição peronista questionou a quebra do processo parlamentar.

O presidente argentino queria ser o primeiro por dois motivos: exibir a Argentina como primeiro país a aprovar o acordo em seu discurso do próximo domingo no Congresso e superar o Brasil — grande potência exportadora de carne e produtos agrícolas — na divisão das cotas europeias.

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No domingo, Milei abrirá as sessões legislativas de 2026 com o tradicional discurso anual, no qual faz um balanço de gestão e indica as prioridades do governo. O presidente busca se posicionar como o líder que abre a economia argentina ao comércio internacional, diferenciando-se de seus antecessores e imprimindo uma nova dinâmica dentro do bloco regional.

No entanto, o Uruguai — governado pela esquerda de Yamandú Orsi — frustrou o cálculo político de Milei. O argentino chegou a antecipar a votação do Senado, convencendo os parlamentares a votarem o acordo na quinta-feira, e não na sexta, como previsto inicialmente.

As aprovações de Uruguai e Argentina aumentam a pressão sobre o Congresso brasileiro para acelerar a tramitação, já que alguns setores do acordo funcionarão por meio de cotas: o país que aprovar primeiro poderá ser beneficiado com maior volume de exportações.

O principal produto sujeito a cotas é a carne bovina, mas também incluem-se carne suína, de aves e pescados (principalmente frutos do mar), além de grãos (como milho), cereais (como arroz), laticínios (queijos e leite em pó), algumas frutas, mel e etanol.

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Próximos passos

Depois da aprovação parlamentar, o acordo deve ser promulgado pelo Executivo e notificado à Comissão Europeia, acionando formalmente o processo do lado europeu.

No entanto, toda a pressa do Mercosul pode esbarrar no ritmo da União Europeia. O Parlamento Europeu enviou o tratado ao Tribunal de Justiça para revisar sua compatibilidade com outros acordos comunitários — um processo que pode levar de seis meses a dois anos.

Mesmo assim, o próprio acordo prevê que a Comissão Europeia pode avançar sem esperar pelo Tribunal ou pelo Parlamento, adotando uma aplicação provisória do tratado, ainda que a implementação definitiva demore mais tempo.

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