Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Mesmo sendo ainda parcial, o triunfo de Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria) neste domingo (31) não estava nos cálculos de nenhuma sondagem. As pesquisas indicavam uma vitória da esquerda de Iván Cepeda (Pacto Histórico) com uma vantagem entre cinco e dez pontos sobre a extrema direita de Abelardo de la Espriella. Algumas medições ainda levantavam a possibilidade de a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia (Centro Democrático), disputar o segundo lugar em disputa acirrada com a extrema direita. Porém, apurados 100% dos votos, Abelardo de la Espriella ficou com 43,74%, 2,84 pontos à frente de Iván Cepeda, com 40,9%. Já a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia, ficou com irrisórios 6,92%, quando as sondagens apontavam mais de 20%.
Esse banho de água fria na esquerda governista revela que boa parte dos colombianos antecipou para o primeiro turno o embate direto, previsto apenas para o segundo. Consequência de uma polarização inédita entre esquerda e extrema direita, depois de décadas em que o país foi governado ora pela centro-direita, ora pela centro-esquerda, mas quase sempre pela direita.
Assim, diante das recentes vitórias da extrema-direita, a Colômbia se soma a essa possibilidade que, na região, já teve exemplos no Brasil, na Argentina, no Chile, no Equador e em El Salvador.
Com 57,9% de participação popular, esta foi a maior votação em um primeiro turno. Na Colômbia, o voto não é obrigatório, e a tradição é mesmo de abstenção.
Abelardo de la Espriella tornou-se o candidato mais votado em um primeiro turno na história do país, tornando-se o primeiro a superar os 10 milhões de votos (10.361.499).
Reações dentro e fora do país
O presidente Gustavo Petro e o candidato da esquerda, Iván Cepeda, rejeitaram o resultado provisório. O chefe de Estado declarou que não aceita os resultados preliminares, criticando o sistema privado responsável pelo processo eleitoral. Petro acusou o software da empresa de adicionar 800 mil eleitores e centenas de milhares de votos. O presidente declarou que "só vai reconhecer o resultado oficial emitido pela Justiça".
O candidato governista, Iván Cepeda, também questionou a contagem preliminar, alegando que ela acrescentou 885 mil eleitores, e declarou que "só vai reconhecer o resultado quando essas inconsistências forem resolvidas". A diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de 673 mil votos.
O candidato vitorioso, Abelardo de la Espriella, respondeu aos dois, chamando-os de "delinquentes", e advertiu: "não se atrevam a desconhecer a vontade popular".
Os presidentes do Equador, Daniel Noboa, e da Argentina, Javier Milei, parabenizaram Abelardo.
Caso a esquerda seja derrotada no próximo dia 21, o presidente Lula perderá um importante aliado na região.
Estratégia eleitoral
Antes do primeiro turno, as pesquisas indicavam que, numa disputa entre Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella, o candidato da esquerda venceria, porque é maior a quantidade de eleitores que rejeitam a extrema direita.
Uma hipótese é que os eleitores anteciparam o cenário do segundo turno, a exemplo de todas as eleições latino-americanas em que a extrema direita ganhou. Os votos da terceira colocada, Paloma Valencia, que iriam para Abelardo num segundo turno, anteciparam esse movimento, migrando já no primeiro turno.
Na noite de domingo, Paloma Valencia anunciou apoio ao candidato da extrema direita. Abelardo já foi advogado do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), fundador e líder do Centro Democrático, representado por Paloma.
Abelardo de la Espriella tem a vantagem de nunca ter sido parte do governo. Quando afirma que vai aplicar "linha dura" contra os violentos, ele tem a vantagem da dúvida, por mais que essa receita já tenha fracassado.
Já o candidato Iván Cepeda foi um dos responsáveis por elaborar o atual plano de "Paz Total" do governo. O plano fracassou e permitiu que os criminosos se fortalecessem e ganhassem territórios.
O que cada lado fará é tentar apresentar o outro como parte integrante de uma elite política que governou o país. Abelardo de la Espriella vai repetir que Iván Cepeda é parte da classe política que sempre roubou o país e que manteve os seus privilégios. Porém, a esquerda, que só chegou ao poder em 2022, também acusará Abelardo de ter sido próximo da elite de direita que sempre governou o país.
Abelardo de la Espriella: o 'Tigre' seguindo os passos do 'Leão'
Abelardo de la Espriella é um advogado penalista, de 47 anos, que se autointitula "Tigre". É curioso porque Javier Milei, na Argentina, se autointitula "Leão".
Assim como Milei, o candidato da extrema direita promete enxugar o Estado, cortando 40% dos gastos públicos e 700 mil servidores. Promete adotar "linha dura" contra o crime e construir megapresídios, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Usa um colete à prova de balas, como o presidente do Equador, Daniel Noboa. Faz discursos atrás de um vidro blindado, como o presidente do Chile, José Antonio Kast. Cumprimenta prestando continência, como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ofende e agride, como Javier Milei ou como Donald Trump. Assim, juntou todas as receitas dos aliados de extrema direita da região.
O candidato também pretende eliminar o diálogo de paz e retomar uma aliança militar com os Estados Unidos. O advogado fez fortuna defendendo paramilitares acusados de crimes violentos, golpistas envolvidos em fraudes milionárias e até o suposto testa de ferro de Nicolás Maduro, Alex Saab.
Abelardo de la Espriella tem cinco empresas próprias, incluindo uma marca de roupa masculina de luxo, uma marca de licores e de rum e um restaurante em Miami. Ele tem residência em Florença, na Itália, onde viaja todos os anos de jato particular para comprar roupas.
Iván Cepeda: um ativista dos direitos humanos
Senador e filósofo de 63 anos, Iván Cepeda propõe um "acordo nacional" com os principais setores estratégicos para aprofundar as reformas estruturantes iniciadas pelo atual governo. O candidato quer manter o "plano de paz" e distribuir um milhão de hectares de terra.
Cepeda é filho de um histórico dirigente comunista e senador, Manuel Cepeda, assassinado em 1994 por motivos políticos. Isso o levou a ser um ativista dos direitos humanos numa Colômbia atravessada por milhares de vítimas de guerrilheiros, paramilitares e traficantes.
Enquanto Iván Cepeda denunciava milicianos paramilitares, Abelardo de la Espriella os defendia.