O avanço chinês no Peru, simbolizado pelo porto de Chancay, vai além da disputa portuária e afeta diretamente o Brasil ao reprecificar a logística de commodities para a Ásia e ampliar o poder de barganha de Pequim sobre o agronegócio nacional. Paralelamente à infraestrutura e à tecnologia 5G, cresce a tensão geopolítica com os EUA. O Brasil fica vulnerável ao depender do comércio chinês enquanto adota normas ocidentais, arriscando sanções futuras caso as potências passem a exigir exclusividade.
Thiago de Aragão, analista político
A embaixada chinesa respondeu no mesmo dia, com números, que é o terreno onde Pequim se sente confortável na América Latina: um estoque de investimento próximo de US$ 30 bilhões, dezenas de bilhões em ganho comercial acumulado para os peruanos, e a afirmação de que o hemisfério ocidental não é o quintal de ninguém, que a diplomacia chinesa vem repetindo desde que Washington voltou a tratar a região como problema de segurança. Dois dias depois, Rubio estava em Lima e Keiko Fujimori confirmava a entrada do Peru no Shield of the Americas.
Nada disso teria peso se fosse apenas troca de comunicados. O que dá densidade ao episódio é Chancay, o porto que a Cosco Shipping Ports opera desde novembro de 2024 e que movimentou 200 mil contêineres só no primeiro semestre deste ano, crescimento de quase 71% sobre o mesmo período de 2025, com 987 mil toneladas em granéis e carga geral, num acumulado que já passou de 502 mil TEU. O terminal foi anunciado com teto de um milhão de contêineres por ano e, na velocidade em que vai, encosta nesse limite no segundo semestre de 2027, o que antecipa uma conversa que os peruanos preferiam adiar, sobre expansão, sobre ferrovia, sobre quem financia os corredores que ligariam o interior do continente ao Pacífico. Essa é a parte que interessa ao capital brasileiro, e não é a parte que costuma aparecer nas manchetes.
Aqui em casa, Chancay foi absorvido como assunto portuário, concorrência para Santos e Paranaguá, disputa por carga. É uma leitura estreita. O que o porto está fazendo é reprecificar o custo de levar soja, milho e cobre sul-americanos para a Ásia, e quem influencia esse custo influencia a margem do produtor brasileiro sem precisar de um hectare de terra no Brasil. Um corredor que corta duas semanas de trânsito até Xangai muda o cálculo de qualquer trading, muda o desenho do frete e muda, sobretudo, o poder de barganha do comprador chinês na negociação de safra, que é onde a perda se materializa sem que ninguém consiga apontar o dia em que ela começou.
O padrão de atuação das estatais chinesas na região já é suficientemente documentado para não ser tratado como coincidência. A obra física vem antes, porque cria dependência operacional e emprego local, e a camada de telecomunicações vem depois, porque se apoia na legitimidade que a primeira construiu.
Huawei e ZTE já ocupam posição central em 5G e data centers no Peru, na Colômbia, no México e no Brasil, segundo o mapeamento da BNamericas, e é exatamente nessa camada que a pressão americana se concentra, porque é ali que o argumento de segurança encontra respaldo bipartidário em Washington. O fórum que Pequim organizou em Lima no dia 16 de setembro, sobre direitos humanos, com representantes de 23 países da região, pertence ao mesmo movimento, e o calendário, na semana seguinte ao artigo de Rubio, não foi acidente.
O Brasil está mais exposto que o Peru nessa equação e já sinalizou mais do que provavelmente pretendia. Ao entrar como país fundador da organização internacional de governança de inteligência artificial puxada por Pequim, Brasília se inscreveu num arranjo normativo chinês antes de ter posição consolidada sobre fornecedores de 5G, sobre cabos submarinos e sobre localização de dados, três decisões que estão sendo tomadas em silêncio por empresas e reguladores. Para quem investe, o risco não é o de hoje, é o da revisão posterior, quando uma escolha de fornecedor de rede ou de nuvem que parecia técnica reaparece como questão de acesso a contrato público e a mercado nos Estados Unidos.
Fujimori está tentando ficar com o dinheiro chinês e com a cobertura de segurança americana ao mesmo tempo, o que descreve com precisão o que quase todo governo da região gostaria de conseguir, e o arranjo se sustenta enquanto nenhuma das duas potências exigir exclusividade. Essa exigência tende a chegar por etapas, começando por telecomunicações e compras públicas, e, quando ela chegar, o país que terá mais a perder é o que construiu simultaneamente sua pauta exportadora sobre a demanda chinesa e sua agenda regulatória sobre parâmetros americanos.