Em um documento intitulado "aviso aos viajantes", as organizações chamam a atenção para a possibilidade de negação arbitrária de entrada no país, detenções sem garantias legais, deportações e tratamentos desumanos, no contexto da política migratória adotada pelo governo do presidente Donald Trump.
Segundo o comunicado da ACLU, torcedores, atletas, profissionais da imprensa e outros visitantes podem sofrer violações graves de seus direitos, uma vez que o governo Trump intensificou sua agenda considerada draconiana contra a imigração e os direitos humanos.
As entidades signatárias do documento fizeram um apelo direto à Federação Internacional de Futebol (Fifa), solicitando que a organização utilize sua influência para pressionar o governo norte‑americano e exigir mudanças concretas nas políticas migratórias, além de garantias claras de proteção para todas as pessoas envolvidas no evento.
O diretor do programa de direitos humanos da ACLU, Jamil Dakwar, afirmou que é mais do que necessário que a Fifa assuma uma postura ativa e utilize seu peso institucional para exigir compromissos tangíveis, de modo que as pessoas possam se sentir seguras ao viajar e assistir às partidas da Copa do Mundo.
De acordo com o alerta divulgado pelas organizações, visitantes estrangeiros que pretendem assistir ao Mundial nos Estados Unidos podem estar sujeitos à negação arbitrária de entrada no território norte‑americano, ao risco de prisão, detenção prolongada ou deportação, bem como à inspeção invasiva de redes sociais e dispositivos eletrônicos por autoridades migratórias.
Aplicação violenta e inconstitucional das leis de imigração
O documento também aponta para a possibilidade de aplicação violenta e inconstitucional das leis de imigração, incluindo fiscalizações baseadas em perfis raciais, além do risco de tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes durante a detenção, e até mesmo a possibilidade de morte sob custódia do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, na sigla em inglês).
Diante dessas advertências, a Fifa respondeu por meio de um comunicado no qual afirmou que, de acordo com o artigo 3º de seus Estatutos, compromete‑se a respeitar e promover todos os direitos humanos reconhecidos internacionalmente.
A entidade destacou que diversos documentos relacionados à Copa do Mundo de 2026, assim como a criação de um Grupo Consultivo sobre Direitos Humanos, composto por especialistas independentes, e a promoção de um Mecanismo de Reclamação em Matéria de Direitos Humanos, demonstram seu compromisso com a proteção desses direitos em todas as atividades‑chave do torneio e para todos os atores envolvidos.
O temor entre os torcedores é reforçado pelo fato de que, dos 104 jogos previstos para a Copa do Mundo de 2026, 78 serão disputados nos Estados Unidos, país que coorganiza o evento ao lado de Canadá e México. As restrições migratórias impostas pelo governo norte‑americano geram especial preocupação entre os torcedores de países como Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim, já classificados para o torneio, cujos cidadãos podem enfrentar obstáculos adicionais para entrar no país.
Embora Washington afirme que essas medidas não afetam os vistos de turismo, o que em tese permitiria a entrada de torcedores que tenham ingressos para os jogos, a Fifa precisou implementar um procedimento acelerado para a solicitação de entrevistas nos consulados, sem qualquer garantia de concessão do visto.
Além disso, muitos torcedores demonstram receio de viajar aos Estados Unidos devido às operações do ICE destinadas a deter e deportar estrangeiros em situação migratória irregular.
Em janeiro, o assassinato de dois manifestantes em Minneapolis, no norte do país, abatidos por agentes federais, provocou uma onda de indignação e reforçou as preocupações em relação ao uso excessivo da força por parte das autoridades, aumentando o clima de apreensão em torno da realização do Mundial no território norte‑americano.
Com AFP