Flávio Bolsonaro vence na América Latina em número de votos; Lula ganha em Buenos Aires

O senador Flávio Bolsonaro (PL) ficou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais em 28 cidades da América Latina e obteve 12.244 votos, mas perdeu em Buenos Aires, o maior colégio eleitoral da região. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu em apenas seis cidades e obteve 9.505 votos.

5 out 2026 - 09h57
Resumo
Flávio Bolsonaro liderou os votos de brasileiros na América Latina no primeiro turno, vencendo em 28 de 34 cidades e somando 12.244 votos contra 9.505 de Lula, com vitórias expressivas no Paraguai e na Bolívia. Lula, contudo, venceu em capitais como Santiago, Cidade do México, Montevidéu e Buenos Aires, o maior colégio eleitoral regional. O presidente argentino Javier Milei comemorou o resultado do aliado da direita, enquanto seu chanceler sugeriu que o petista poderia desistir da disputa.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Em Buenos Aires, eleitores do presidente Lula acompanham a apuração dos votos diante de um telão.
Em Buenos Aires, eleitores do presidente Lula acompanham a apuração dos votos diante de um telão.
Foto: © RFI/Márcio Resende. / RFI

O chanceler argentino, Pablo Quirno, revelou que Javier Milei falou com Flávio Bolsonaro e afirmou que a vitória do aliado no primeiro turno ratifica a influência global do presidente argentino.

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Em Buenos Aires, eleitores de Lula fecharam uma rua para acompanhar a apuração dos votos transmitida num telão, mas o resultado decepcionou a multidão.

Se a América Latina vive uma onda de vitórias da direita, essa tendência parece ser reforçada pelos eleitores brasileiros nessa região. Das 34 cidades onde há seções eleitorais, 28 foram ganhas por Flávio Bolsonaro e apenas seis preferiram Lula.

Em quantidade de votos, foram 12.244 votos nos países vizinhos ao Brasil para o senador do PL, enquanto o petista obteve 9.505. No entanto, o maior colégio eleitoral, Buenos Aires, votou majoritariamente na reeleição do presidente brasileiro. Na capital argentina, Lula ficou com 3.507 votos, 66,06% do total. Bolsonaro somou 1.449, equivalentes a 27,29%.

Argentina, Paraguai, México, Bolívia, Chile e Uruguai são os países que concentram mais de três mil eleitores brasileiros inscritos, sendo a Argentina (13.138) e o Paraguai (9.225) muito superiores ao pelotão seguinte, formado por México (3.975), Bolívia (3.627), Chile (3.569) e Uruguai (3.175). Em todos, a abstenção rondou, em média, os 50%.

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No principal colégio eleitoral do Paraguai, Cidade do Leste, Flávio Bolsonaro chegou a 2.239 votos (89,45%), enquanto Lula teve 10% disso: 202 votos (8,07%).

Na capital mexicana, Lula ganhou com 589 votos (45,84%), seguido bem de perto por Bolsonaro com 585 votos (45,53%).

Em Santa Cruz de la Sierra, cidade boliviana com o maior número de eleitores brasileiros, Bolsonaro obteve ampla vitória, com 1.162 votos (81,37%), enquanto Lula recebeu 194 votos (13,59%).

Na capital chilena, Santiago, Lula ficou com 47,08% das preferências ao obter 928 votos. Bolsonaro veio logo atrás com 809 votos (41,05%).

Os brasileiros em Montevidéu, no Uruguai, na sua maioria, optaram por Lula com 686 votos (54,32%), enquanto Bolsonaro ficou atrás com 465 votos (36,82%).

De todos esses principais países, apenas México e Uruguai são governados pela esquerda.

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Votação no maior colégio eleitoral da região

Em Buenos Aires, cidade latino-americana com mais eleitores brasileiros (11.873), a votação fluiu bem em 28 das 30 seções. Em duas delas, em determinados horários, a aglomeração provocou atrasos. Apesar da boa organização do Consulado, o TSE aglutinou muita gente nessas seções, fazendo com que as filas demorassem entre duas e três horas. A espera, no entanto, não tirou a satisfação dos eleitores com o exercício do voto.

"Escolhi Bolsonaro porque eu acho que é família e religião. Acho que o país merece a direita. Os quatro anos do ex-presidente Jair Bolsonaro foram muito bons. Para mim, Bolsonaro governou bem", explica à RFI a eleitora Regina Dias, de 54 anos, empresária oriunda de Florianópolis, há 27 anos na Argentina.

Regina não se preocupa com as denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro que envolvem o candidato Flávio Bolsonaro.

"Não pesa na balança porque nós já temos um presidente que foi presidiário", compara.

Já a eleitora paulistana Giovanna Vaz, de 27 anos, estudante de Medicina em Buenos Aires, votou em Lula para impedir a subordinação do Brasil aos Estados Unidos e manter a autonomia na política externa.

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"Eu não quero que o nosso país seja vendido para os Estados Unidos. A gente tem o dever de salvar o nosso país", acredita.

O presidente argentino, Javier Milei, quer acabar com a universidade gratuita para estrangeiros. Numa publicação neste domingo (4), Milei questionou: "É correto que um pedreiro do Norte da Argentina pague a carreira universitária de um brasileiro da classe alta?".

É comum encontrar estudantes brasileiros em Buenos Aires que votam em Bolsonaro, aliado de Milei.

"É uma hipocrisia tremenda usufruir de um serviço público em outro país e querer Bolsonaro para o seu próprio país. Não tem o mínimo de raciocínio lógico nessa escolha. Ainda mais quando Milei quer que nós, brasileiros, vamos embora", critica Giovanna.

O eleitor Pedro Siqueira Neto, de 35 anos, vindo de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, vê outra contradição: imigrantes brasileiros que votam num candidato aliado de quem é contra a imigração.

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"Como eu, imigrante, posso defender um governo que não apoia a nossa soberania, a educação pública, a saúde pública? Ou seja: o modelo Bolsonaro no Brasil vai ser o de Milei aqui. Por quê? Porque é uma cartilha internacional", aponta Pedro à RFI.

"Eu voto no Lula porque pude estudar pelo ProUni, pude dar acesso a uma melhor qualidade de vida à minha família e hoje tenho um trabalho numa organização financeira internacional muito importante, graças ao acesso democrático à educação que o Lula proporcionou", agradece Pedro, hoje na área de finanças do maior banco dos Estados Unidos.

Diante do telão, os eleitores do petista observavam, incrédulos, a vantagem de Flávio Bolsonaro se consolidar.

José Alves, de 31 anos, empresário paulista de Piracicaba, votou em Bolsonaro "devido ao histórico de resultado do Partido dos Trabalhadores no Brasil".

"Não tem como manter o que está acontecendo. A esquerda está há muito tempo no Brasil e o resultado é que a gente tem hoje", aponta José à RFI.

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"Em relação à economia, é surpreendente um brasileiro que mora na Argentina há mais de um ano votar na esquerda porque o impacto da política na economia aqui foi muito forte. A Argentina sofreu muito mais do que o Brasil. É um espelho do que o Brasil pode se tornar se continuar tendo a esquerda no governo. A gente não pode querer o que aconteceu na Argentina para o nosso país", reflete José.

Governo Milei comenta desempenho de Flávio

Em entrevista à TV Argentina durante a apuração dos votos no Brasil, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, questionou se o presidente Lula vai continuar na corrida eleitoral depois da derrota no primeiro turno. O chanceler acredita que Lula pode desistir para evitar uma derrota humilhante no segundo turno. "Lula vai dar de presente a Bolsonaro um triunfo contundente?", questionou o ministro argentino.

"Nesta noite, Lula deve estar pensando: 'eu quero ficar nesse baile'?", afirmou Pablo Quirno, perguntando-se: "Haverá segundo turno?".

O chanceler argentino também atribuiu a Milei o bom desempenho de Flávio Bolsonaro na eleição. Quirno afirmou que a votação no candidato do PL "ratifica a influência global do presidente Milei", porque a candidatura de Bolsonaro ganhou força depois que o argentino viajou a São Paulo, em julho, para o lançamento da campanha do aliado.

"Naquele momento, a diferença entre os candidatos (Lula e Bolsonaro) era maior do que dois dígitos e vinha aumentando. A partir dali, a recuperação de Bolsonaro começou. Acredite se quiser", interpretou o chanceler argentino.

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Pablo Quirno também revelou que Flávio Bolsonaro e Javier Milei conversaram após o resultado do primeiro turno, mas não deu detalhes sobre o teor da conversa.

Na noite deste domingo, Milei publicou nas redes sociais uma mensagem ao seu aliado ideológico.

"Parabéns, querido amigo Flávio Bolsonaro, por esta histórica eleição contra o comunista do Lula. O continente americano é dos cidadãos que querem viver em liberdade. Espero que, em breve, possamos trabalhar juntos para que Argentina e Brasil continuem sendo grandes parceiros comerciais, culturais e políticos. As oportunidades para as nossas nações, trabalhando juntas, são infinitas", afirmou Milei, num momento em que os dois países estão sem embaixador devido às diferenças entre os governos.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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